O efeito Dunning-Kruger – Artigo do adv. MachidovelTrigueiro Filho

Você costuma dar opinião a respeito dos mais variados temas e acredita que tem conhecimento para fazer isso com propriedade? Se a resposta for sim, tenha cuidado, pois você pode estar sob o efeito Dunning-Kruger e não saber.

Bertand Russell dizia que o maior problema do mundo moderno é que as pessoas preparadas estão sempre cheias de dúvidas, enquanto as ignorantes, cheias de certezas. Incômodo semelhante sentia o escritor Umberto Eco. Para ele, antes das redes sociais, os “tolos da aldeia tinham direito à palavra em um bar, sem prejudicar a coletividade”. Hoje, a internet transforma qualquer tolo em portador de uma suposta verdade universal perigosa.

O efeito Dunning-Kruger evidencia-se por uma distorção de pensamento em que há uma superioridade ilusória, quando uma pessoa despreparada superestima suas próprias qualidades e habilidades em relação aos outros. Nessa pandemia, isso ficou bem evidenciado nos grupos de WhatsApp e redes sociais, ambientes férteis para impulsionar opiniões de indivíduos ignorantes em vários temas e a disseminação de fake news. Parece que o Covid-19 reacendeu a vontade incontrolável dessas pessoas opinarem sobre qualquer assunto. Como escreveu Charles Darwin no clássico A descendência do homem, em 1871: “A ignorância gera mais frequentemente confiança do que o conhecimento”.

Esses indivíduos se assumem como experts e têm uma percepção artificialmente inflada das suas próprias habilidades, temperada pelo ego, traumas e instintos. Nessa toada, há também os incompetentes de plantão que os apoiam. Por isso, percebo muitos ambientes efervescentes de discussões virtuais como “arenas da imbecilidade” que acabam por afastar as pessoas mais preparadas.

Essa legião de desinformados cheios de certezas acaba por multiplicar desnecessários conflitos por não perceberem os perigos da ignorância e findam por construir sua marca pessoal de forma negativa. Nesses tempos, manter a reputação digital e optar por responsabilidade social é o recomendado. Afinal, como Confúcio teria dito, “o conhecimento real é perceber a extensão de sua própria ignorância”.

MACHIDOVEL TRIGUEIRO FILHO, professor na Florida International University e pesquisador em Stanford, EUA.