Há instituições que não pertencem apenas à categoria que representam. Elas pertencem à cidade — e, em certa medida, ao próprio tempo. A Associação Cearense de Imprensa (ACI) é uma dessas raridades: fundada em 14 de julho de 1925, nasceu como Associação dos Jornalistas Cearenses e, ao ajustar seu nome para se vincular à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), consolidou-se como uma das entidades mais tradicionais do país.

A ACI também ajudou a escrever, na prática, a história da organização profissional no Ceará. Sua trajetória se confunde com fases em que a imprensa buscava estrutura, reconhecimento e proteção institucional, e com iniciativas culturais e formativas que fizeram da entidade um ponto de encontro — não apenas de jornalistas, mas de ideias.

No coração de Fortaleza, a sede — a conhecida Casa do Jornalista, na Rua Floriano Peixoto — é símbolo e prova material desse legado. E há um detalhe que merece ser lembrado: a mobilização social para erguer e sustentar esse patrimônio passou por campanhas e eventos que marcavam a vida cultural da cidade, como as Semanas da Imprensa e a escolha das “Rainhas da Imprensa”, citadas pela própria ACI como parte da força que viabilizou o edifício.

Somam-se a isso bens que traduzem a vocação de acolhimento e serviço: a colônia de férias em Paracuru, com casas destinadas aos associados, e a estrutura de apoio que historicamente reforçou o sentido de comunidade. E, no ano do centenário, a entidade buscou um gesto que é, ao mesmo tempo, administrativo e simbólico: o pedido de tombamento do prédio-sede, como forma de preservar uma memória que ultrapassa os muros da própria instituição.

Dito isso, nenhuma tradição sobrevive apenas de lembranças. Entidades se sustentam com gestãopertencimento e relevância pública. Quando o associado se afasta — por desalento, desinformação ou simples falta de conexão com as novas gerações — a instituição começa a virar ruína silenciosa: está de pé, mas já não fala com a cidade.

Nos últimos anos, muitos colegas apontaram a impressão de que a ACI se tornara mais visível em disputas de narrativa do que em estratégia de reposicionamento institucional, com perda gradual de presença pública. Registro aqui essa percepção como crítica editorial — legítima numa democracia — sem transformar divergência política em rótulo, nem opinião em sentença. ACI forte não é ACI “de direita” ou “de esquerda”: é ACI da imprensa, com portas abertas ao plural, firme na defesa da liberdade e eficiente na administração do seu patrimônio.

Por isso, é justo reconhecer o que o próprio noticiário institucional e a cobertura local já registraram: uma mudança de ciclo com a nova diretoria. Eleito para o triênio 2025–2028, o jornalista Eliézer Rodrigues assumiu em meio ao simbolismo do centenário e com discurso de reconstrução, propostas e retomada de protagonismo.

O que se espera, agora, é que essa energia se transforme em rotina — e que rotina se transforme em resultado: recuperar associados, reaproximar a entidade das faculdades, dialogar com redações e com o ecossistema digital, preservar e dar uso inteligente ao patrimônio, estimular formação, memória, museu, biblioteca, prêmios e eventos que devolvam à ACI um papel natural: ser ponte entre imprensa, cultura e sociedade.

Fortaleza — e o Ceará — precisam de uma ACI que volte a ser referência. E a imprensa, em qualquer época, precisa de instituições que saibam fazer duas coisas ao mesmo tempo: defender princípios e administrar com competência.

A boa notícia é que, ao que tudo indica, tempos novos começaram a soprar. E quando uma casa histórica volta a acender as luzes, a cidade inteira enxerga melhor.