Esta semana marcou um episódio de profunda repercussão para o Brasil no tabuleiro econômico global: a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou ilegais grande parte das tarifas comerciais impostas pelo governo americano, medidas que vinham onerando significativamente as exportações brasileiras.
A decisão — além de ser um golpe nas pretensões protecionistas de Washington — desencadeou uma reação imediata nos mercados: o principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa, ultrapassou pela primeira vez a marca de 190 mil pontos, e o dólar encerrou o dia em queda expressiva, chegando a cerca de R$ 5,17, patamar que não se via desde maio de 2024.
Por que essa decisão importa para o Brasil?
O chamado “tarifaço” americano, implementado pelo governo de Donald Trump, havia imposto alíquotas elevadas — em alguns casos acima de 40% — sobre produtos importados como motores, máquinas, café solúvel e frutas brasileiras. O objetivo declarado era proteger indústrias domésticas; o efeito prático, porém, foi elevar custos e reduzir a competitividade de exportadores brasileiros nos mercados dos EUA, o principal destino das vendas externas do país.
Com a Suprema Corte concluindo que a criação de tarifas é competência exclusiva do Congresso e não do Executivo, a política tarifária foi, em grande parte, anulada. Isso representou não apenas uma vitória técnica no debate jurídico americano, mas um alívio imediato para exportadores e para a própria economia brasileira, que vinha sentindo os efeitos da guerra tarifária.
Impacto nos mercados e na economia real
Os números não mentem: o Ibovespa operou em níveis recordes em meio ao alívio no sentimento dos investidores, enquanto o real se valorizou frente ao dólar, reduzindo pressões inflacionárias importadas e tornando ativos brasileiros, em tese, mais atrativos.
Mas os efeitos vão além das cotações momentâneas: a decisão judicial retoma a discussão sobre a dependência brasileira em relação a políticas comerciais de terceiros e o papel da governança global no comercio internacional. Isso coloca em destaque a necessidade de uma estratégia externa que não dependa exclusivamente de fatores exógenos, sobretudo decisões judiciais em outros países.
O Brasil no tabuleiro global
Nesse contexto, o Brasil enfrenta um duplo desafio:
Explorar as oportunidades criadas pela reversão tarifária nos EUA, abrindo mercados para produtos brasileiros antes penalizados;
Diversificar e fortalecer suas relações econômicas, reduzindo vulnerabilidades. A recente aproximação com a Índia e negociações ampliadas em tecnologia, inteligência artificial e minerais estratégicos, por exemplo, demonstram essa busca por autonomia e cooperação sul-sul — caminho que exige disciplina jurídica, diplomática e estratégica.
A decisão da Suprema Corte americana não é apenas uma boa notícia para a bolsa de valores ou para exportadores: ela nos força a refletir sobre a interdependência jurídica e econômica entre nações, sobre a necessidade de uma diplomacia comercial ativa e tecnicamente aprofundada e sobre as oportunidades de reformular pactos bilaterais e multilaterais que possam proteger os interesses brasileiros em um mundo cada vez mais polarizado e competitivo.
Enquanto celebramos os efeitos positivos de curto prazo, a lição perene é clara: o Brasil precisa construir seus caminhos com autonomia, estratégia e visão jurídica global.
