Levantamento internacional aponta que a IA Generativa já está redefinindo estruturas, processos e expectativas nos escritórios de advocacia, abrindo espaço para funções híbridas entre direito, tecnologia e inovação
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa para o setor jurídico e passou a ocupar o centro das estratégias de transformação dos escritórios de advocacia ao redor do mundo. É o que revela o Generative AI-Centric Law Firm Model, estudo global realizado em 2025 com 87 escritórios de advocacia de diferentes portes (que variam de 250 a mais de 10 mil colaboradores) distribuídos por todos os continentes. A amostra reúne líderes de mercados como Alemanha, Brasil, Estados Unidos, China, França, Índia, Japão, Reino Unido, entre outros, oferecendo um retrato abrangente sobre como a IA Generativa está remodelando a prática jurídica.
De acordo com Paulo Silvestre, diretor de Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento Estratégico da consultoria BMTax e um dos pesquisadores envolvidos no desenvolvimento da pesquisa, o objetivo do levantamento esteve em dar direção para o uso de IA Generativa na advocacia e tirar a tecnologia do lugar de “curiosidade” ou de pilotos isolados, colocando-a no centro do modelo operacional do escritório, com governança, consistência e impacto no negócio.
Segundo o levantamento, 73% dos escritórios planejam ampliar seus investimentos em IA Generativa nos próximos três anos, sendo que 40% esperam um crescimento significativo nesse aporte. Hoje, mais da metade dos participantes (51%) já possui ou está desenvolvendo soluções próprias de IA, com foco claro na customização tecnológica, um indicativo de que o setor caminha para modelos menos padronizados e mais alinhados às suas especialidades e aos perfis de seus clientes.
Essa mudança estrutural também altera a dinâmica de relacionamento no mercado jurídico. Para 43% dos profissionais ouvidos, a IA tende a criar uma relação mais colaborativa e orientada por dados entre advogados e clientes, enquanto 29% acreditam que a tecnologia deve elevar o nível de confiança, impulsionada por maior precisão e previsibilidade nas análises jurídicas. Há ainda um olhar estratégico para novas oportunidades: 20% dos escritórios enxergam na IA Generativa o potencial para o desenvolvimento de novos modelos de negócio e fontes adicionais de receita.
No centro dessa transformação está um framework que organiza a aplicação da IA em quatro núcleos principais: serviço ao cliente, serviços jurídicos, análise de riscos e gestão do conhecimento. Essa arquitetura, segundo o estudo, assegura a confiabilidade dos sistemas ao mesmo tempo em que permite o refinamento contínuo dos dados e das respostas geradas. Trata-se de um modelo que pode ser infinitamente enriquecido pela experiência humana, desde que conte com supervisão especializada, reforçando a ideia de que a IA funciona como uma aliada que amplifica a inteligência jurídica, e não como uma ameaça à atuação profissional.
Nesse contexto, os escritórios que adotam estruturas de IA Generativa projetam uma redução de até 75% no tempo de produção e personalização de contratos e petições, 60% menos tempo dedicado à pesquisa jurídica e uma economia de 40% nos custos operacionais. Além disso, 58% dos departamentos jurídicos indicam que a adoção da tecnologia pode reduzir a dependência de advogados externos, ao mesmo tempo em que libera os profissionais internos para atividades estratégicas de maior complexidade.
Esse novo arranjo operacional também tem reflexos diretos na estrutura de cargos. De acordo com o estudo, 60% dos escritórios preveem a criação de novas funções voltadas à tecnologia e à inovação, acompanhando a maturação do uso da IA Generativa. Entre os cargos que já começam a ganhar espaço no mercado internacional estão posições como Chief AI Officer, responsável por liderar estratégias de inteligência artificial em nível executivo; Legal Engineer, que atua na interseção entre direito, tecnologia e design de processos; e Legal Technologist, especializado na integração de ferramentas de IA e soluções legaltech às operações jurídicas.
Outras funções, como Legal Operations e Legal AI Consultant, também aparecem como peças-chave nesse novo ecossistema, apoiando a gestão de processos, a adoção segura da tecnologia e o alinhamento entre inovação e estratégia de negócios. O estudo destaca ainda o fortalecimento do modelo human in the loop, no qual a atuação humana permanece central na supervisão, validação e direcionamento das decisões apoiadas por IA.
Apesar do avanço global, o levantamento aponta que alguns países ainda se encontram em estágios iniciais de maturidade no uso estratégico da IA Generativa, conforme aponta o executivo da BMTax: “Conversando com escritórios de vários países, ficou claro que o problema não era tecnológico, era falta de direção. Mesmo com o Brasil se destacando como protagonista em alguns movimentos, a dificuldade de enxergar oportunidades reais de aplicação e de conectá-las à estratégia do escritório se repetia em praticamente todos os lugares”. Em muitos casos, a tecnologia está restrita à fase operacional, distante de todo o potencial de impacto que pode oferecer quando integrada às decisões estratégicas e ao desenho dos serviços jurídicos.
Nesse sentido, Paulo Silvestre recomenda que os escritórios parem de tratar IA como ferramenta e passem a tratá-la como modelo operacional orientado por inteligência. “Isso vale para escritórios de advocacia e para qualquer empresa que esteja usando o framework como referência. Eu já vi esse filme em contextos diferentes. Quando o tema vira “qual modelo vamos usar” ou “qual ferramenta vamos comprar”, normalmente a conversa já começou errado. O limitador quase nunca é tecnologia. O limitador é direção, dados e governança. Sem dado estruturado, com qualidade e contexto, IA só acelera tarefa e muda pouco o resultado. Com base de dados bem estruturada, você muda o nível do jogo. Você ganha previsibilidade, recomendação, decisão mais consistente e aprendizado contínuo”, afirma ao comentar as principais recomendações do estudo para os escritórios de advocacia.
A abordagem do executivo é corroborada pelos resultados do Generative AI-Centric Law Firm Model que indica que a Inteligência Artificial não apenas redefine processos, mas inaugura uma nova lógica de organização do trabalho jurídico, na qual tecnologia, dados e expertise humana passam a operar de forma integrada.
