A Reforma Tributária deve provocar um aumento de até 20% nos custos finais das obras no Brasil a partir da regulamentação da Lei Complementar nº 214/2025, segundo estudo da BSSP Consulting, divulgado com exclusividade pela revista Exame.
De acordo com a análise, as mudanças na tributação sobre o consumo tendem a gerar uma das maiores reestruturações da cadeia produtiva da construção civil nas últimas décadas, com impactos desiguais entre insumos, mão de obra, equipamentos e varejo de materiais.
O estudo foi coordenado por Liêda Amaral, consultora líder da BSSP, em conjunto com os tributaristas Fábio Lira e Fábio Rodrigues, e aponta efeitos diretos sobre os custos líquidos e as margens operacionais das empresas do setor. As variações vão desde uma redução média de 4% na carga tributária de insumos industriais, como aço, cimento e cerâmica, até elevações expressivas nos custos finais das obras, especialmente em empresas com menor integração produtiva ou maior dependência de contratação direta de mão de obra.
Segundo Liêda Amaral, a substituição do PIS/Cofins pela CBS e pelo IBS, dentro de um modelo de não cumulatividade plena, exigirá uma revisão completa da estrutura de precificação e da gestão fiscal das empresas. “A construção civil é altamente intensiva em serviços e mão de obra, o que a torna mais sensível às mudanças na tributação indireta”, explica.
Outro ponto destacado no relatório é a adoção da chamada tributação “por fora”, na qual os tributos deixam de ser embutidos no preço final e passam a ser destacados separadamente. Embora a medida aumente a transparência e a eficiência do sistema, também tende a tornar o peso tributário mais visível ao consumidor final.
No detalhamento setorial, o estudo aponta que a mão de obra deve registrar uma alta entre 18% e 20% até 2029, com o fim do atual Regime Especial de Tributação (RET). Já equipamentos e EPIs devem sofrer reajuste médio de 2%, impulsionado pelo novo Imposto Seletivo (IS).
No varejo de materiais de construção, os efeitos variam conforme o produto. Materiais cerâmicos podem ficar até 25% mais baratos, enquanto itens plásticos tendem a encarecer em até 26%. Já produtos eletrônicos podem registrar alta aproximada de 11%.
Para Fábio Lira, o principal desafio não está apenas no aumento ou redução da carga tributária, mas em sua redistribuição ao longo da cadeia produtiva. “Empresas que não se prepararem para a apuração e o controle eficiente de créditos tributários perderão competitividade”, alerta.
A construção civil representa cerca de 3% do PIB brasileiro e emprega diretamente 3 milhões de pessoas, segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). O varejo de materiais responde por 15,2% do PIB da cadeia, movimentando aproximadamente R$ 580 bilhões por ano, conforme dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat).
Para 2025, a Abramat projeta crescimento de 2,8% no setor. No entanto, a transição tributária até 2033, com a convivência entre os regimes antigo e novo, tende a comprimir margens e exigir profunda revisão dos contratos e da governança fiscal das empresas.
“A Reforma promete simplificação, mas impõe uma curva de aprendizado elevada. A digitalização da gestão tributária será essencial para preservar a viabilidade econômica dos contratos”, afirma Fábio Rodrigues, sócio da BSSP.
O estudo também aponta impactos sobre a Zona Franca de Manaus, que deve perder parte de sua vantagem competitiva, apesar da manutenção dos incentivos fiscais até 2073. A adoção do princípio da tributação no destino reduz a relevância do benefício fiscal na decisão do consumidor final.
Diante desse cenário, a BSSP recomenda quatro medidas principais às empresas do setor:
• Revisão de cláusulas contratuais para preservação do equilíbrio econômico-financeiro;
• Mapeamento e controle digital dos créditos de IBS e CBS;
• Reestruturação do mix de fornecedores, priorizando empresas fora do Simples Nacional;
• Simulação de cenários operacionais com revisão de margens e preços.
A análise conclui que a Reforma Tributária representa a maior transformação do sistema de tributação do consumo em mais de 50 anos, funcionando como um divisor de águas entre empresas preparadas para o novo modelo e aquelas que permanecem presas a estruturas fiscais ultrapassadas.
