Por Sabino Henrique Elpídio de Carvalho

O tradicional encontro de final de ano da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) foi muito mais do que um momento protocolar. O que se viu, ouviu e registrou ali foi um diagnóstico preciso do Brasil real, das angústias do setor produtivo e, sobretudo, daquilo que o Ceará vem fazendo de certo — mesmo em meio a um cenário nacional adverso, ressaltados no pronunciamento do presidente Ricardo Cavalcante.

A justa homenagem ao ex-presidente Roberto Proença de Macêdo, com a criação da Medalha do Mérito Socioambiental que leva seu nome, foi simbólica. Mais do que reverenciar um líder, a indústria reafirmou valores: integridade, visão de longo prazo e compromisso com o desenvolvimento sustentável. Não se trata de nostalgia, mas de memória ativa, que inspira decisões presentes.

A celebração dos 75 anos da FIEC, acompanhada do lançamento de obra histórica cuidadosamente documentada, reforça uma verdade incontornável: o desenvolvimento do Ceará não nasceu por acaso. Ele foi construído com planejamento, persistência e articulação entre lideranças empresariais, trabalhadores, técnicos e instituições.

Mas o momento mais relevante do encontro esteve no conteúdo político e econômico do discurso do presidente Ricardo Cavalcante. A crítica à manutenção de juros reais entre os mais altos do mundo foi direta, fundamentada e necessária. Juros estratosféricos não combatem apenas a inflação; eles sufocam o investimento produtivo, ampliam o endividamento das famílias e reduzem a capacidade do Estado de investir onde realmente importa. É uma equação que penaliza quem produz, quem trabalha e quem consome.

A ausência de uma política fiscal consistente, aliada ao adiamento indefinido da reforma administrativa, forma um quadro preocupante. Não há desenvolvimento sustentável sem responsabilidade fiscal, eficiência do gasto público e coragem política para enfrentar privilégios históricos.

A reforma tributária, embora avance na simplificação, ainda deixa questões sensíveis em aberto, sobretudo para o Nordeste. A extinção gradual do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) e a indefinição sobre o novo Fundo de Desenvolvimento Regional acendem um alerta legítimo. Ignorar as desigualdades regionais é aprofundá-las.

Nesse contexto, o Ceará surge como contraponto positivo. Os números apresentados não são retóricos: crescimento expressivo do emprego industrial, diversificação produtiva, internacionalização, liderança em setores tradicionais e estratégicos, protagonismo em energias renováveis e inserção crescente em cadeias globais mais sofisticadas. O dado de que 10% do aço produzido no Brasil é cearense não é apenas estatístico — é simbólico da maturidade industrial alcançada.

Outro ponto digno de registro foi o reconhecimento explícito ao governador Elmano de Freitas. Em um episódio recente e delicado, quando tarifas internacionais ameaçaram exportações e empregos, o Governo do Estado reagiu com rapidez, diálogo e medidas concretas. Crédito, compensações e estímulos ao consumo local não são gestos triviais; são escolhas políticas que preservam dignidade, renda e estabilidade social.

O Sistema FIEC, por sua vez, demonstra coerência entre discurso e prática. Educação, saúde, formação profissional, inovação, inteligência artificial, pesquisa aplicada e internacionalização não são promessas futuras — são políticas em execução. A instalação do Instituto SENAI de Inovação no campus do ITA, em Fortaleza, projeta o Ceará para um novo patamar tecnológico e acadêmico.

A indústria cearense deixou um recado claro: desenvolvimento não se faz com improviso, radicalismos ou retórica vazia. Ele exige diálogo institucional, previsibilidade, responsabilidade fiscal, investimento em pessoas e coragem para decidir.

Se o Brasil aprender com experiências como a do Ceará, talvez possamos substituir o debate estéril por uma agenda madura, capaz de transformar potencial em prosperidade real. A indústria fez sua parte ao falar com clareza. Agora, cabe ao país ouvir.

Sabino Henrique Elpídio de Carvalho

Jornalista e advogado

Editor do Direitoce

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