Especialista em mediação explica por que nem todo conflito precisa ir ao Judiciário

Em um país historicamente marcado pela judicialização das relações pessoais e empresariais, cresce a reflexão sobre a necessidade de métodos mais humanos, eficientes e responsáveis para a resolução de conflitos. Questões familiares, sucessórias e societárias chegam com frequência ao Judiciário carregadas de emoções intensas, falhas de comunicação e disputas que ultrapassam o aspecto jurídico.

Com sólida formação acadêmica, experiência docente e mais de duas décadas de atuação em mediações e litígios de alta complexidade, a advogada e mediadora Vivian Zalcman tornou-se referência nacional na resolução estratégica de conflitos. Sua prática envolve disputas familiares, empresariais e transnacionais, sempre com foco na construção de soluções responsáveis e na preservação de vínculos quando possível.

Para ela, a mediação não é uma alternativa frágil ao processo judicial, mas uma ferramenta madura, técnica e estratégica de pacificação social.

“A mediação transforma o conflito em diálogo e impede que o processo judicial se torne apenas a continuação do sofrimento por outros meios”, afirma.

Por que nem todo conflito precisa se transformar em um processo judicial?

Porque o Judiciário deve ser acionado como última instância. Muitas vezes, o processo nasce da dor, da frustração ou do rompimento de vínculos, e não de uma real necessidade jurídica. No Direito de Família, especialmente, o litígio tende a aprofundar feridas emocionais e cristalizar posições. A mediação oferece algo que nenhuma sentença entrega: diálogo estruturado, corresponsabilização e soluções construídas pelas próprias partes.

Ainda existe preconceito em relação à mediação?

Sim, mas ele decorre de um equívoco. Optar pela mediação exige maturidade emocional, preparo técnico e coragem para assumir decisões. Em países onde a cultura do diálogo está mais consolidada, a mediação é vista como sinal de inteligência estratégica. No Brasil, esse olhar ainda está em processo de amadurecimento.

Em que situações a mediação costuma ser mais eficaz?

Ela é especialmente eficaz em conflitos familiares, sucessórios e empresariais, sobretudo quando existe — ou precisa existir — algum tipo de relação futura entre as partes. Divórcios com filhos, reorganizações patrimoniais complexas e disputas entre sócios são exemplos clássicos. Sempre que preservar vínculos ou reputações for relevante, a mediação tende a ser o caminho mais saudável.

E quando a mediação não é recomendada?

Quando há violência, abuso, desequilíbrio extremo de forças ou impossibilidade concreta de diálogo. Nesses casos, o Judiciário é indispensável. A mediação não substitui o processo judicial; ela o antecede quando há condições éticas e técnicas para isso. Reconhecer esse limite também é parte da responsabilidade profissional.

Sua atuação como advogada influencia sua prática como mediadora?

Totalmente. Conheço profundamente o litígio: seus riscos, custos financeiros, emocionais e reputacionais. Justamente por isso consigo identificar quando o processo é desnecessário. Reservar a energia do sistema de Justiça para os casos que realmente exigem enfrentamento é uma forma de responsabilidade institucional.

O que muda quando um conflito é resolvido pela mediação?

Muda o “depois”. Vejo famílias se reorganizarem, pais retomarem o diálogo e filhos deixarem de ocupar o lugar simbólico do conflito. A mediação não apaga o passado, mas transforma a forma como ele é elaborado e seguido adiante. Isso impacta diretamente a saúde emocional e a estabilidade das relações futuras.

Você afirma que o divórcio pode ser libertador. Como assim?

Quando uma relação se sustenta apenas pelo conflito, insistir nela é adoecer todos os envolvidos. A mediação permite que as pessoas sigam caminhos distintos de forma mais consciente e saudável. Não se trata de banalizar o rompimento, mas de conduzi-lo com responsabilidade, especialmente quando há filhos.

Por que o Brasil ainda é tão litigante?

É uma questão cultural. Fomos educados a transferir conflitos ao Estado. Em outros países, o diálogo estruturado faz parte da formação social e jurídica. A mediação propõe exatamente essa mudança de mentalidade, que ultrapassa os limites do Judiciário.

E nos conflitos familiares internacionais?

Nesses casos, a mediação é ainda mais estratégica. Litígios transnacionais costumam gerar múltiplos processos em diferentes países, com alto custo e baixa previsibilidade. A mediação permite soluções flexíveis, compatíveis com diferentes sistemas jurídicos e culturas, reduzindo o desgaste emocional e financeiro das partes.

Qual o erro mais comum nas disputas familiares judicializadas?

Confundir mágoa com direito. O processo vira palco de ressentimentos e, muitas vezes, os filhos acabam pagando a conta. A mediação ajuda a separar o emocional do jurídico, protegendo as próximas gerações e promovendo soluções proporcionais e humanas.

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