Por – Henrique Ferreira, co-fundador da Inspira
A advocacia brasileira passa por uma reestruturação relevante, ainda pouco percebida no debate público. Longe de se tratar apenas de mudanças pontuais, a própria base da profissão foi profundamente alterada. Isso porque, hoje, ela é sustentada majoritariamente por profissionais em início de carreira, o que impacta diretamente o dia-a-dia profissional, as expectativas em relação à atividade e o papel das instituições jurídicas.
Segundo o 1º Estudo Demográfico da Advocacia Brasileira, realizado pelo Conselho Federal da OAB em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), 33% das advogadas e advogados brasileiros possuem até cinco anos de inscrição na OAB, enquanto 55% estão na faixa etária entre 24 e 44 anos. Essa realidade contrasta com a imagem historicamente associada ao setor, frequentemente compreendida como uma prática de consolidação tardia, marcada por trajetórias longas e progressivas até o reconhecimento profissional.
Esses números revelam que a advocacia brasileira é, em sua essência, uma profissão jovem. Trata-se de um contingente expressivo de profissionais que ingressaram no mercado em um contexto marcado por elevada competitividade, transformações tecnológicas aceleradas e novas concepções sobre trabalho, desempenho e qualidade de vida. Isso sinaliza uma redefinição gradual da forma de exercer a rotina jurídica e de compreender seu valor social e econômico: tecnologia e inteligência artificial como elementos estruturantes do novo mercado de trabalho.
Isso porque, para a geração mais nova, a IA tende a ser incorporada como ferramenta de apoio à atividade, contribuindo para a automatização de tarefas repetitivas, a organização de grandes volumes de informação e o aprimoramento da pesquisa jurídica. Nesse contexto, a tecnologia não substitui o exercício intelectual da advogada e do advogado, mas amplia sua capacidade de atuação, permitindo maior dedicação a atividades estratégicas, analíticas e decisórias.
O potencial é gigantesco: o uso responsável dessas inovações apontam para maior eficiência, melhor gestão do tempo e potencial incremento da qualidade de vida – aspectos cada vez mais relevantes não só para a nova geração como para os clientes que demandam serviços jurídicos mais ágeis e orientados à solução de problemas.
O desafio da modernização jurídica
Apesar do entusiasmo com a tecnologia e da valorização de novas formas de atuação, a advocacia brasileira ainda enfrenta desafios significativos em termos de condições de trabalho e satisfação profissional. A pesquisa da FGV revela que a satisfação média com a atividade está em 6,3 (numa escala de 0 a 10), sendo que cerca de 52% dos advogados avaliam que as condições gerais para a atuação vêm piorando. Essa percepção, no entanto, varia de forma expressiva entre gerações. Profissionais com mais de 20 anos de inscrição na Ordem demonstram maior pessimismo: 61% consideram que as condições pioraram ao longo do tempo. Entre advogados com menos de três anos de inscrição, esse percentual cai para 40%, revelando uma diferença clara de expectativas e experiências entre gerações.
Esses dados indicam que, mesmo em um cenário de modernização, ainda é preciso enfrentar questões estruturais profundas, que vão além das ferramentas digitais e refletem desafios históricos da profissão — desde a valorização do trabalho até a efetividade das instituições.
Sabemos que no último ano, a adoção da inteligência artificial no setor jurídico avançou de maneira acelerada, consolidando-se como uma realidade operacional irreversível. De acordo com o relatório Legal Tech Trends (2026), em 2025 o uso de IA já alcançava 60% dos departamentos jurídicos corporativos, enquanto nos escritórios o crescimento foi ainda mais expressivo: de 37% em 2024 para 80% em 2025. Entre grandes bancas, o movimento é praticamente universal, com escritórios com mais de 700 advogados registrando 100% de adoção.
Nesse cenário, o maior engajamento das gerações mais jovens reforça o caráter irreversível dessa transformação, ao mesmo tempo em que evidencia a necessidade de capacitação contínua para garantir o uso eficiente e responsável da tecnologia no setor jurídico. Ou seja, o mercado não é apenas mais jovem — ela opera sob um novo paradigma de pensamento, atuação e tomada de decisão. À medida que o perfil profissional e os modelos de formação evoluem, também mudam as ferramentas, os métodos e os critérios que orientam a prática jurídica.
A jovem advocacia brasileira já atua nesse novo cenário, mas para que seu potencial seja plenamente realizado, é preciso que estruturas, métodos e instituições evoluam em sintonia com o futuro que já chegou. Mais do que uma mudança demográfica ou tecnológica, essa é uma transformação cultural: uma prática que mantém seus valores essenciais, mas que se reinventa para atender às demandas contemporâneas e para exercer, de forma inovadora, seu papel social e econômico no Brasil e no mundo.
