Por Sabino Henrique

Durante décadas, o Ceará foi retratado — muitas vezes com razão — como um estado de economia frágil, dependente do setor público, com parque industrial incipiente e grandes desigualdades sociais. Esse retrato, no entanto, começa a ganhar novos contornos. Ainda sem alarde e longe de triunfalismos, o estado vem, pouco a pouco, assumindo uma posição de maior relevância econômica no Nordeste, impulsionado sobretudo pelo crescimento da renda do trabalho.

Dados recentes da Fundação Getulio Vargas (FGV) ajudam a compreender essa mudança. Entre 2022 e 2024, o Ceará registrou um aumento significativo da população inserida nas classes de maior renda. As classes A, B e C — que compreendem famílias com renda acima de quatro salários mínimos — passaram de 51,85% para 59,07% da população. Trata-se de um avanço de 7,22 pontos percentuais em apenas dois anos, um movimento relevante em qualquer análise socioeconômica.

Segundo o estudo da FGV, o principal fator dessa transformação foi a renda gerada pelo trabalho. Não se trata, portanto, de um crescimento artificial ou sustentado apenas por programas de transferência de renda, mas de uma melhora associada à ocupação, à formalização e ao aumento real dos rendimentos. Esse dado merece atenção especial, pois revela um fortalecimento gradual da base econômica da sociedade cearense.

É preciso reconhecer que esse avanço ocorre apesar das limitações estruturais ainda existentes. O Ceará não dispõe de um parque industrial robusto, tampouco de grandes conglomerados econômicos privados comparáveis aos de outras regiões do país. Ainda assim, setores como comércio, serviços, turismo, tecnologia, energias renováveis e agronegócio vêm exercendo papel cada vez mais relevante na geração de empregos e renda.

Esse novo cenário traz oportunidades, mas também impõe desafios. O crescimento das classes A, B e C amplia o consumo, dinamiza a economia e fortalece o mercado interno. Por outro lado, exige políticas públicas mais eficientes nas áreas de educação, saúde, mobilidade urbana, segurança e justiça social. Uma população com maior renda também passa a demandar mais qualidade institucional, serviços públicos mais ágeis e maior previsibilidade jurídica.

Do ponto de vista jurídico e institucional, esse movimento reforça a importância de um ambiente regulatório estável, de segurança jurídica e de fortalecimento das instituições. Crescimento econômico sustentável não se consolida sem confiança, respeito aos contratos, eficiência administrativa e justiça acessível.

O Ceará, portanto, vive um momento de transição. Ainda carrega fragilidades históricas, mas começa a construir, com base no trabalho e na renda, uma nova realidade social. O desafio agora é transformar esse crescimento silencioso em desenvolvimento duradouro, reduzindo desigualdades, ampliando oportunidades e consolidando um estado economicamente mais forte, socialmente mais justo e institucionalmente mais seguro.

Esse é o debate que precisa estar na agenda pública — longe da retórica fácil e próximo da realidade dos números e das pessoas.