Ferramenta em testes automatiza a leitura de matrículas imobiliárias; resultados divulgados pela empresa dependem de conferência profissional

A inteligência artificial está sendo utilizada para acelerar a análise de documentos na investigação patrimonial de pessoas e empresas com dívidas. A tecnologia extrai e organiza informações que podem auxiliar a localização de bens, mas não dispensa a revisão dos registros nem garante a recuperação dos valores devidos.

O uso dessas ferramentas ocorre em um cenário de inadimplência elevada. Segundo a Serasa, o Brasil registrou 83,98 milhões de consumidores inadimplentes em agosto de 2026. Entre as empresas, levantamento da Serasa Experian referente a julho apontou 9,2 milhões de CNPJs negativados, com R$ 238,6 bilhões em dívidas.

Uma das soluções voltadas à análise documental foi desenvolvida pela LEME Inteligência Forense. Segundo dados operacionais divulgados pela companhia em outubro, a ferramenta processou 462 mil matrículas imobiliárias desde o início do projeto-piloto, em maio de 2026. A aplicação está em testes com clientes selecionados.

Leitura automatizada de documentos

Integrada à plataforma SONAR, a solução extrai informações de documentos imobiliários e as organiza em campos estruturados, conforme critérios definidos pelos profissionais. O objetivo é reduzir tarefas repetitivas e facilitar a seleção de registros que exigem análise aprofundada.

A matrícula reúne informações sobre o imóvel, como propriedade, alterações e eventuais restrições. A leitura de seu histórico permite identificar circunstâncias que podem influenciar a investigação patrimonial.

Em um dos casos relatados pela LEME, foram identificadas mais de 600 matrículas vinculadas a um devedor. Segundo Leonardo Botelho Schulka, responsável pela área jurídica e de investigação da empresa, um analista consegue examinar, em média, cerca de 20 matrículas por dia, dependendo da extensão e da complexidade dos documentos.

Empresa relata redução no tempo de trabalho

De acordo com a LEME, o uso combinado de ferramentas especializadas e automações reduziu entre 67% e 75% o tempo de execução de um projeto de coleta de dados. Determinadas etapas, antes realizadas em três ou quatro dias, passaram a ser concluídas em aproximadamente um dia.

Os percentuais são resultados operacionais informados pela própria companhia. Referem-se ao tempo de coleta e consolidação de informações, e não a uma taxa de recuperação de dívidas ou de sucesso judicial.

Conferência humana permanece necessária

Documentos antigos, imagens de baixa qualidade e falhas de digitalização podem provocar erros na leitura automatizada. Por isso, segundo Schulka, as informações extraídas precisam ser conferidas nos registros originais, e a interpretação jurídica permanece sob responsabilidade dos profissionais.

Localizar uma referência a um imóvel também não significa que ele esteja disponível para quitar determinada dívida. A situação do patrimônio e sua possível utilização na recuperação do crédito exigem avaliação específica.

A contribuição da inteligência artificial, nesse processo, está em organizar o levantamento documental e apoiar o trabalho dos analistas.

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