Como o poder político anestesia a capacidade crítica do eleitor e destrói a autonomia individual nas eleições de 2026.
Série Especial: A República dos Insensatos (Artigo 1/5) Como o poder político anestesia a capacidade crítica do eleitor? No primeiro artigo da nossa série especial sobre as Eleições 2026, o advogado e jornalista Sabino Henrique analisa a Teoria da Estupidez de Dietrich Bonhoeffer aplicada ao cenário nacional. Entenda por que a estupidez é um desvio moral, e não intelectual, e como o comportamento de manada ameaça a nossa autonomia.
Nas vésperas das eleições de 2026, o cenário político brasileiro volta a evidenciar um fenômeno que transcende a mera disputa partidária: a anestesia da capacidade crítica das massas. Dietrich Bonhoeffer, ao analisar a ascensão do totalitarismo na Alemanha em suas célebres cartas escritas da prisão (coletadas em “Resistência e Submissão”), formulou uma verdade incômoda: a estupidez não é um defeito de inteligência, mas um desvio moral e social. Bonhoeffer observou que existem pessoas de intelecto brilhante que agem de forma soberbamente estúpida, enquanto indivíduos de pouca instrução demonstram profunda sabedoria prática. A estupidez, portanto, não se combate com instrução, mas com libertação moral.
De acordo com a tese de Bonhoeffer, o processo de estupidificação coletiva é diretamente proporcional à ascensão do poder político ou ideológico. Quando um grupo ou líder político ganha força, ele gera um impacto psicossocial que priva o indivíduo de sua independência de pensamento. Sob o calor de slogans fáceis, promessas messiânicas e narrativas polarizadas, o cidadão abre mão de sua autonomia intelectual em troca do pertencimento e da segurança psicológica do bando. Ele não se torna estúpido por incapacidade cognitiva, mas porque aceita ser transformado em uma ferramenta dócil e sem vontade própria nas mãos do poder.
No Brasil contemporâneo, essa dinâmica se traduz na incapacidade absoluta de debater propostas reais de forma lógica. O eleitor estupidificado pelo sectarismo é impermeável a dados econômicos, retrocessos legislativos ou inconsistências éticas de seus representantes; ele reage apenas aos estímulos emocionais ditados por seus líderes de estimação. Diante de fatos que contradizem seus dogmas, ele simplesmente os ignora ou os classifica como conspiração. A urna eletrônica, que deveria ser o ápice do exercício da cidadania consciente, corre o risco de se tornar um mero homologador de dogmas coletivos. Para o ecossistema jurídico e democrático, o resgate da individualidade crítica é a primeira e mais urgente linha de defesa contra a tirania da insensatez.
