matriz de Santo Antonio, Quixeramobim

Há datas que o calendário registra, e há outras que a alma jamais esquece.

Nasci em Quixeramobim, numa sexta-feira de abril, quando o relógio marcava por volta das quatro e meia da tarde, e as matracas, como vozes antigas de madeira, rasgavam o silêncio da rua para anunciar a passagem do Senhor Morto. Não foi apenas um nascimento: foi um encontro. Entre o primeiro choro de um menino e o som grave da fé de um povo, firmou-se um pacto invisível que o tempo não desfez.

A casa na avenida Monsenhor Salviano não era apenas morada. Era testemunha. Dali, vi passar a vida em procissão: os passos lentos dos fiéis, as sombras alongadas da tarde, o respeito quase sagrado que pairava no ar. E, entre tudo isso, eu, recém-chegado ao mundo, já envolto por uma liturgia que não compreendia, mas que me acolhia.

Cresci naquela terra onde os vínculos não se explicam, apenas se vivem. Pais, avós, tios, irmãos. Uma constelação familiar que iluminava os dias simples e moldava o caráter. Nos bancos do Ginásio Andrade Furtado e do Colégio Estadual de Quixeramobim, aprendi as primeiras letras e também as primeiras responsabilidades. Mas foi nas ruas, nas conversas e nos silêncios da cidade que aprendi a escutar o mundo.

Voltar agora, tantos anos depois, não foi apenas regressar. Foi reencontrar.

Nesta Semana Santa, sob o mesmo céu e talvez sob as mesmas nuvens distraídas, revi a Igreja de Santo Antônio de Pádua, onde o tempo parece ajoelhar-se. Participei da missa do lava-pés, acompanhei mais uma vez a procissão do Senhor Morto, e, por um instante, tive a impressão de que tudo permanecia igual — como se o passado houvesse decidido esperar por mim.

Mas não estava só.

A vida, generosa como poucas vezes, reuniu ao meu redor aqueles que dão sentido ao tempo. Minha mulher, Auxiliadora, companheira de tantas jornadas. Meus filhos e filha, noras e genro, com seus afetos já multiplicados em novas vidas. Netas que carregam no olhar a promessa do futuro. Cunhados, amigos e amigas vindos de Fortaleza, e acompanhandoo de Fortaleza, de Milão, de Berlim, de Goiânia — como se o mundo inteiro houvesse conspirado para caber, por alguns dias, naquele pedaço antigo do sertão.

E, como todo bom reencontro pede celebração, sentamo-nos à mesa farta do Restaurante do Paulo Holanda, onde o alimento tem gosto de acolhimento. Entre risos, histórias e brindes silenciosos à vida, recebi um presente simples e simbólico: um chapéu branco, desses que lembram sol, estrada e dignidade. Um chapéu para quem já caminhou muito, mas ainda guarda disposição para seguir.

Setenta e nove anos depois, percebo que aquele som de matracas não anunciava apenas a morte ritual de um Cristo. Anunciava, também, o início de uma existência marcada pela memória, pela fé e pelos afetos.

Há quem diga que o tempo passa. Talvez.

Mas há dias — como este — em que o tempo, respeitoso, faz uma pausa… e nos permite sentir, com rara clareza, que a vida, apesar de tudo, valeu a pena

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