Por Rita de Cássia Carvalho Parahyba

Há encontros que permanecem na memória não apenas pelo momento vivido, mas pelo privilégio da convivência. Recentemente, tive a alegria de reencontrar o Dr. Joaci Góes, uma das figuras mais respeitadas da vida intelectual e pública da Bahia. Advogado, jornalista, escritor, empresário e ex-deputado constituinte, Joaci construiu uma trajetória marcada pela excelência, pela cultura e pelo compromisso com o pensamento crítico.

Esse encontro teve um significado ainda mais especial porque Joaci foi contemporâneo da minha mãe na tradicional Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Imaginar que ambos compartilharam a mesma instituição, em um período tão rico da vida acadêmica baiana, tornou o momento ainda mais simbólico e afetivo.

Foi uma experiência verdadeiramente incrível.

Poucas vezes temos a oportunidade de estar diante de alguém cuja genialidade se revela de forma tão natural. Impressiona sua capacidade de transitar entre o Direito, a política, a história, a literatura e a comunicação com profundidade, clareza e elegância. Mais do que conhecimento, Joaci transmite sabedoria, aquela que somente o tempo, o estudo permanente e a experiência de vida são capazes de proporcionar.

Nossa conversa foi um verdadeiro exercício intelectual. Trocamos livros, compartilhamos reflexões e discutimos temas que vão muito além do cotidiano jurídico. Foi uma tarde de aprendizado, de boas histórias e de inspiração.

Um dos momentos mais marcantes foi ter em mãos um exemplar original do jornal publicado exatamente no dia do meu nascimento. Folhear aquelas páginas, ao lado de alguém que testemunhou e participou de tantos capítulos importantes da história da Bahia, foi uma experiência difícil de traduzir em palavras.

Esse momento ganhou ainda mais significado por ter acontecido no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, instituição da qual Dr. Joaci Góes hoje exerce uma importante missão de liderança e preservação da memória baiana. Fundado em 1894, o Instituto é uma das mais tradicionais instituições culturais do país e tem a responsabilidade de proteger, estudar e difundir o patrimônio histórico, geográfico e documental da Bahia. Seu acervo reúne milhares de jornais históricos, mapas, manuscritos, livros raros, fotografias, obras de arte, mobiliário e peças de inestimável valor para a compreensão da formação política, social e cultural do Estado.

Instalado em uma imponente edificação de inspiração neoclássica, na Avenida Sete de Setembro, em Salvador, o Instituto impressiona pela arquitetura e pela atmosfera que preserva. Cada ambiente parece guardar um capítulo da história baiana. Caminhar por seus salões é percorrer mais de um século de memória, cercado por documentos, coleções e objetos que testemunharam importantes acontecimentos da vida pública e intelectual da Bahia.

É admirável perceber o cuidado e a dedicação com que Joaci Góes conduz essa missão. Mais do que administrar uma instituição centenária, ele atua como verdadeiro guardião da memória da Bahia, zelando para que esse extraordinário patrimônio permaneça vivo, acessível às novas gerações e disponível aos pesquisadores, historiadores e a todos aqueles que compreendem que conhecer o passado é condição indispensável para construir o futuro.

Vivemos tempos em que a informação circula em velocidade recorde, mas a profundidade se tornou cada vez mais rara. Talvez por isso encontros como esse sejam tão valiosos. Eles nos lembram que o verdadeiro conhecimento nasce da curiosidade, da leitura, da escuta atenta e da disposição permanente para aprender.

Saí desse reencontro profundamente enriquecida. Não apenas pelos livros trocados ou pelas conversas compartilhadas, mas pela oportunidade de conviver, ainda que por algumas horas, com uma mente brilhante e um homem cuja trajetória inspira gerações.

Há pessoas que conquistam reconhecimento pelos cargos que ocuparam. Outras são admiradas pelo legado intelectual que deixam. Joaci Góes reúne ambos os méritos e permanece como uma referência de inteligência, elegância e compromisso com o pensamento.

Hoje, embora o Ceará seja o Estado que escolhi para viver, trabalhar e construir uma nova etapa da minha história, e pelo qual nutro profundo respeito, admiração e gratidão, a Bahia continua sendo o lugar onde estão fincadas as minhas raízes. Sou baiana de nascimento, de alma e de coração. Retornar à minha terra é sempre um reencontro com a minha própria identidade, com as memórias que me formaram e com pessoas que ajudaram a escrever a história deste Estado. Talvez por isso este encontro com o Dr. Joaci Góes tenha sido tão especial. Mais do que uma conversa memorável, ele representou um reencontro com a essência da Bahia: uma terra que produz inteligência, cultura, elegância e homens e mulheres comprometidos com o conhecimento. E foi justamente essa Bahia que, mais uma vez, tive o privilégio e a emoção de reencontrar.

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