Por Harley Ximenes
Advogado Especialista em Direito do Trabalho, Empresarial e Sindical.
Durante décadas, o trabalho doméstico no Brasil foi tratado como uma atividade invisível. Invisível aos olhos da sociedade, invisível ao reconhecimento jurídico e, principalmente, invisível à dignidade humana. Mesmo após avanços legislativos importantes, ainda persiste uma estrutura social profundamente marcada pelo preconceito, pela desigualdade e por uma lógica herdada do período colonial.
O trabalho doméstico brasileiro possui raízes históricas diretamente ligadas à escravidão. Após a abolição formal da escravatura, muitas mulheres negras continuaram ocupando funções domésticas dentro das casas das elites brasileiras, agora sem correntes, mas ainda submetidas à exploração, à subserviência e à ausência de direitos básicos. O espaço da “casa grande” apenas mudou de forma. A mentalidade, infelizmente, permaneceu viva em muitos setores da sociedade.
Não é coincidência que as empregadas domésticas tenham sido uma das últimas categorias profissionais a conquistar direitos trabalhistas efetivos no Brasil. Somente com a chamada “PEC das Domésticas”, promulgada em 2013, e posteriormente regulamentada pela Lei Complementar nº 150/2015, passaram a existir garantias mais amplas como jornada limitada, horas extras, FGTS obrigatório e direitos previdenciários mais sólidos. Ainda assim, a legislação avançou mais rápido do que a consciência social.
O recente caso envolvendo a empresária Carolina Estela, ocorrido no Maranhão e com repercussão nacional, escancarou essa realidade cruel. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a empresária foi presa após denúncias de agressões contra uma funcionária doméstica, situação agravada pela divulgação de áudios em que, conforme noticiado, ela demonstraria orgulho das agressões praticadas. As investigações ainda apontam possível participação de agentes públicos e omissão policial diante da ocorrência inicial. O caso ganhou notoriedade nacional justamente porque simboliza algo maior: a permanência de uma cultura de desumanização do trabalhador doméstico.
O mais preocupante não é apenas a violência física narrada nas investigações, mas a naturalidade com que parte da sociedade ainda enxerga relações abusivas dentro do ambiente doméstico. Muitas trabalhadoras continuam sendo tratadas como pessoas “de segunda categoria”, obrigadas a suportar humilhações, jornadas exaustivas, salários incompatíveis e, em alguns casos, verdadeiras situações análogas à escravidão.
É impossível discutir essa temática sem abordar o elemento racial e social presente nessa estrutura. Historicamente, o trabalho doméstico foi ocupado majoritariamente por mulheres negras e pobres. Essa realidade revela que o preconceito contra a categoria não é apenas econômico, mas também racial, estrutural e cultural. A herança colonial brasileira construiu uma lógica perversa: a de que determinadas pessoas nasceram para servir e outras nasceram para mandar.
Nesse contexto, ganha relevância histórica a luta de figuras como Laudelina de Campos Melo, pioneira na organização sindical das trabalhadoras domésticas e uma das primeiras vozes a denunciar a exploração sofrida pela categoria no Brasil. Sua trajetória demonstra que os direitos conquistados não foram presentes concedidos pelo Estado, mas frutos de décadas de resistência social e política.
Apesar dos avanços legislativos, o Brasil ainda convive com números alarmantes de informalidade no setor doméstico. Milhares de trabalhadoras permanecem sem carteira assinada, sem recolhimento previdenciário e sem qualquer proteção mínima. Muitas vezes, o vínculo afetivo criado dentro da residência é utilizado como mecanismo de manipulação emocional para justificar a ausência de direitos. A antiga frase “ela é como se fosse da família” frequentemente esconde relações profundamente desiguais e exploratórias.
O desafio atual não é apenas jurídico. É civilizatório. A sociedade brasileira precisa compreender que dignidade não depende da profissão exercida. O trabalho doméstico possui valor econômico, social e humano. Quem cuida da casa, prepara alimentos, organiza o ambiente familiar e participa da criação de filhos exerce função essencial para o funcionamento da própria sociedade.
Combater essa mentalidade colonial exige fiscalização estatal, fortalecimento sindical, educação social e aplicação rigorosa das leis trabalhistas e penais. Mas exige, sobretudo, mudança cultural. Enquanto houver quem enxergue a empregada doméstica como alguém inferior, o Brasil continuará preso às sombras da senzala, ainda que tente se apresentar como uma sociedade moderna e democrática.
