Por Sabino Henrique

Durante muito tempo, as grandes transformações da advocacia aconteceram devagar.

Vieram o computador, a internet, os processos eletrônicos, as audiências virtuais, os escritórios digitais. Houve resistência, adaptação e, finalmente, incorporação dessas ferramentas ao cotidiano profissional.

Com a inteligência artificial, porém, parece estar acontecendo algo diferente: a transformação não está batendo à porta. Ela já entrou no escritório.

A X Conferência Estadual da Advocacia Cearense, realizada nesta semana em Fortaleza, colocou tecnologia, inovação e inteligência artificial entre os temas relacionados ao futuro da profissão. Não poderia ser diferente.

Mas, terminada a Conferência, fica uma pergunta que talvez mereça acompanhar cada advogado de volta ao seu escritório:

o profissional que não aprender a trabalhar com inteligência artificial ficará para trás?

Minha resposta é: provavelmente, sim.

Mas é preciso explicar o que isso significa.

Não acredito que estejamos simplesmente diante da substituição do advogado pela máquina. Direito não é apenas localizar uma lei, resumir um processo ou redigir uma petição.

Advogar envolve interpretação, estratégia, experiência, negociação, conhecimento das pessoas, percepção das circunstâncias e, principalmente, responsabilidade.

Uma máquina pode produzir um texto. Quem responde por ele é o advogado.

Pode sugerir uma tese. Quem precisa avaliar se ela é juridicamente sustentável é o advogado.

Pode encontrar rapidamente informações em milhares de páginas. Quem deve verificar se essas informações são verdadeiras, atuais e aplicáveis ao caso concreto continua sendo o profissional.

É justamente aí que está uma das grandes questões dessa transformação.

Talvez a inteligência artificial não substitua o advogado.

Mas o advogado que souber utilizá-la poderá adquirir enorme vantagem sobre aquele que decidir ignorá-la.

Imagine dois profissionais igualmente competentes.

Um deles continua trabalhando exatamente como fazia há dez anos. Pesquisa manualmente, lê centenas de páginas procurando determinado ponto, começa suas minutas do zero, organiza informações e documentos utilizando métodos tradicionais.

O outro conhece Direito tão bem quanto o primeiro, mas utiliza ferramentas tecnológicas para organizar documentos, comparar informações, localizar rapidamente determinados assuntos, produzir sínteses iniciais e auxiliar tarefas repetitivas.

O tempo economizado poderá ser utilizado justamente naquilo que a máquina não deveria fazer pelo advogado: pensar.

É aí, a meu ver, que está a verdadeira revolução.

A inteligência artificial não deveria significar menos inteligência humana dentro dos escritórios. Deveria significar exatamente o contrário.

Se uma ferramenta puder realizar em minutos determinadas tarefas mecânicas que antes consumiam horas, o profissional terá mais tempo para estudar o processo, conversar com o cliente, construir estratégias e aperfeiçoar seus argumentos.

Mas existe o outro lado — e ele é perigoso.

A mesma tecnologia capaz de aumentar extraordinariamente a produtividade também pode multiplicar erros com a mesma velocidade.

Sistemas de inteligência artificial podem produzir informações incorretas, imprecisas ou até referências inexistentes. Por isso, confiar cegamente numa resposta produzida pela máquina é incompatível com a responsabilidade profissional.

A própria Ordem dos Advogados do Brasil já estabeleceu recomendações para o uso da inteligência artificial generativa na prática jurídica, chamando atenção para questões como confidencialidade, privacidade, ética e responsabilidade profissional.

Isso significa que aprender inteligência artificial não é simplesmente descobrir como fazer uma máquina escrever uma petição.

É aprender quando utilizá-la, como utilizá-la e, principalmente, quando desconfiar dela.

Há ainda outro problema que considero fundamental: o sigilo.

O advogado trabalha diariamente com contratos, estratégias empresariais, conflitos familiares, documentos pessoais, dados financeiros e inúmeras informações que lhe foram confiadas porque existe uma relação profissional protegida por deveres éticos.

Não se pode simplesmente copiar todo esse conteúdo para qualquer plataforma tecnológica sem saber o que acontecerá com essas informações.

A facilidade não elimina a responsabilidade.

Por isso, quanto mais poderosa se tornar a inteligência artificial, mais importante será a formação do advogado que a utiliza.

E aqui surge um paradoxo interessante.

Alguns imaginam que a inteligência artificial diminuirá a importância do conhecimento jurídico.

Penso exatamente o contrário.

Quanto melhor a máquina, mais preparado deverá estar o profissional encarregado de fiscalizá-la.

Quem conhece pouco Direito poderá receber uma resposta errada e considerá-la excelente.

Quem conhece profundamente sua área terá condições de perceber a inconsistência, corrigir o caminho e utilizar a tecnologia como instrumento, não como substituta do próprio raciocínio.

Isso também cria um enorme desafio para as faculdades de Direito.

Continuaremos formando estudantes para decorar conceitos e reproduzir respostas que uma máquina consegue fornecer em segundos?

Ou ensinaremos os futuros advogados a interpretar, argumentar, questionar, investigar fontes, resolver problemas e desenvolver pensamento crítico?

A inteligência artificial talvez obrigue o ensino jurídico a voltar justamente ao que deveria ser sua essência: ensinar a pensar.

Também os escritórios precisarão mudar.

Os jovens advogados não poderão imaginar que dominar tecnologia dispense sólida formação jurídica. E os profissionais mais experientes não deveriam cometer o erro inverso: acreditar que décadas de experiência permitem ignorar ferramentas capazes de transformar profundamente a profissão.

Experiência e tecnologia não são adversárias.

Podem ser uma combinação extraordinariamente poderosa.

A advocacia já sobreviveu a muitas transformações. Sobreviverá também à inteligência artificial.

Mas isso não significa que todos exercerão a profissão da mesma maneira.

Algumas tarefas desaparecerão. Outras serão automatizadas. Novas especialidades surgirão. Clientes provavelmente exigirão respostas mais rápidas. Escritórios poderão operar com estruturas diferentes. E aquilo que hoje consideramos inovação poderá, em pouco tempo, tornar-se simplesmente rotina.

Por isso, talvez estejamos fazendo a pergunta errada quando indagamos se a inteligência artificial substituirá os advogados.

A pergunta mais importante é outra:

que tipo de advogado continuará sendo indispensável quando todos tiverem acesso à inteligência artificial?

Arrisco uma resposta.

Será indispensável aquele que souber Direito.

Que conheça seu cliente.

Que tenha experiência e discernimento.

Que saiba formular as perguntas certas.

Que desconfie das respostas fáceis.

Que confira as fontes.

Que preserve o sigilo.

Que utilize a tecnologia sem entregar a ela sua responsabilidade.

E, principalmente, que continue pensando.

Porque talvez o maior perigo da inteligência artificial para a advocacia não seja a máquina aprender a pensar como advogado.

É o advogado deixar que a máquina pense por ele.

Para a publicação, considero especialmente forte manter o título “O advogado que ignorar a IA ficará para trás?”. Ele provoca o leitor sem antecipar completamente a conclusão e corresponde à tese desenvolvida no texto. As referências factuais utilizadas como base são a X Conferência da OAB-CE, as recomendações nacionais da OAB para IA generativa e as normas do CNJ sobre IA no Judiciário. (OAB-CE)

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