Depois de duas décadas de regime militar, os constituintes tiveram de definir qual espaço os partidos ocupariam na democracia que estava sendo reconstruída

Quando a Assembleia Nacional Constituinte iniciou seus trabalhos, em 1º de fevereiro de 1987, seus integrantes receberam uma missão histórica.

Era necessário construir a estrutura jurídica da democracia brasileira depois de duas décadas de regime militar.

Entre os temas fundamentais estava a organização dos partidos políticos.

Do bipartidarismo à abertura

Depois do golpe de 1964, o regime militar alterou profundamente o sistema político.

Em 1965, os partidos existentes foram extintos e estabeleceu-se um sistema bipartidário.

De um lado estava a Arena, que dava sustentação política ao regime. Do outro, o MDB, que concentrava a oposição institucional.

Esse modelo começou a ser desmontado no final da década de 1970.

A reforma partidária de 1979 restabeleceu o pluripartidarismo.

A Arena deu lugar ao PDS. O MDB tornou-se PMDB. Outras organizações surgiram ou foram reorganizadas, entre elas PT, PDT e PTB.

Quando a Constituinte foi instalada, portanto, o País já experimentava novamente o pluripartidarismo.

Faltava transformar essa liberdade em garantia constitucional.

Treze partidos na Constituinte

A Assembleia Nacional Constituinte reuniu 559 parlamentares — 487 deputados e 72 senadores.

A distribuição partidária revelava forte concentração.

O PMDB possuía 303 constituintes. O PFL, 135. Depois apareciam PDS, PDT, PTB, PT, PL, PDC, PCB, PCdoB, PSB, PSC e PMB.

Eram 13 legendas representadas.

Mas PMDB e PFL reuniam juntos 438 dos 559 integrantes.

A desigualdade de representação levantava desde o começo uma questão essencial:

como assegurar espaço às minorias partidárias dentro de uma Assembleia dominada por duas grandes bancadas?

Um cearense na Vice-Presidência

A Presidência ficou com Ulysses Guimarães, do PMDB paulista.

O Ceará ocupou uma das posições mais importantes da Mesa.

O senador Mauro Benevides, do PMDB cearense, tornou-se 1º vice-presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

Bernardo Cabral foi o relator-geral.

Onde os partidos foram discutidos

A Constituinte distribuiu seus trabalhos entre comissões e subcomissões.

Uma delas era a Comissão da Organização Eleitoral, Partidária e Garantia das Instituições.

Dentro dessa estrutura funcionava a Subcomissão do Sistema Eleitoral e Partidos Políticos.

Ali estavam algumas das questões essenciais da democracia que estava sendo construída.

Que liberdade deveriam possuir os partidos?

Como seriam criados?

Deveriam ter caráter nacional?

Qual seria o papel da Justiça Eleitoral?

Até onde poderia chegar a intervenção do Estado?

Como proteger as minorias?

O Ceará esteve diretamente nesse debate por intermédio da deputada Moema São Thiago, do PDT.

Ela participou como suplente da Subcomissão do Sistema Eleitoral e Partidos Políticos.

Logo no início da Constituinte, questionou regras que considerava prejudiciais às pequenas legendas e defendeu a participação das minorias.

A discussão antecipava um problema que atravessaria as décadas seguintes: como conciliar representatividade parlamentar e pluralidade partidária?

O artigo 17

A resposta constitucional apareceria principalmente no artigo 17.

A Constituição estabeleceu a liberdade de criação, fusão, incorporação e extinção dos partidos, observados princípios como soberania nacional, regime democrático, pluripartidarismo e direitos fundamentais.

Também assegurou autonomia partidária e estabeleceu obrigações às organizações.

Era uma mudança profunda.

Depois de um período em que o Estado havia interferido diretamente na existência das organizações políticas, a liberdade partidária passava a integrar a nova ordem democrática.

Depois da Constituição

A legislação teria de ser adaptada.

Em 1995 seria sancionada a Lei nº 9.096 — Lei dos Partidos Políticos.

Dois anos depois viria a Lei nº 9.504/1997 — Lei das Eleições.

Estavam estabelecidas algumas das principais bases jurídicas do sistema partidário e eleitoral da nova República.

Mas quem eram os cearenses que participaram dessa construção?

NA PRÓXIMA REPORTAGEM — Os cearenses que ajudaram a escrever a Constituição.

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