Por Sabino Henrique
A eleição presidencial de 2026 fortaleceu a posição de Camilo Santana no debate sobre o futuro do Partido dos Trabalhadores. Ex-governador do Ceará, ex-ministro da Educação e atual líder da bancada petista no Senado, ele reúne experiência administrativa, base eleitoral e participação na articulação nacional.
São credenciais que justificam considerar seu nome para 2030. Ainda não autorizam, porém, apresentá-lo como sucessor escolhido de Luiz Inácio Lula da Silva.
O primeiro fundamento dessa possibilidade está no Ceará. Elmano de Freitas foi reeleito governador no primeiro turno, com 53,19% dos votos válidos. No segundo turno presidencial, Lula recebeu 4.036.124 votos no estado, equivalentes a 68,93% dos válidos. Esses resultados demonstram a força da aliança da qual Camilo é um dos principais articuladores. Não constituem uma realização individual: envolvem o governador, prefeitos, parlamentares, partidos aliados, militância e o próprio eleitorado. Mas reforçam sua capacidade de participar da organização de uma maioria política.
O segundo fundamento está na passagem da atuação estadual para a campanha presidencial. Camilo ganhou protagonismo na coordenação política da candidatura de Lula no segundo turno. Essa participação ampliou sua exposição e o colocou diante de uma tarefa diferente daquela exercida no Ceará: ajudar a articular uma disputa nacional, com interesses regionais diversos e necessidade de interlocução para além do PT. Uma vitória presidencial tem muitas causas. Atribuí-la à eficiência de um único coordenador seria substituir análise por exaltação. O significado político de sua atuação é outro: Camilo passou a ser observado também como alguém capaz de assumir responsabilidades fora de sua base de origem. A experiência no Ministério da Educação acrescenta conteúdo a essa projeção. Durante sua gestão, foi instituído o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, organizado em colaboração com estados e municípios. Segundo o Inep, o percentual de crianças da rede pública alfabetizadas na idade adequada chegou a 66% em 2025, acima da meta nacional de 64%. O resultado pertence a uma rede de responsabilidades, que inclui governos, gestores escolares e professores. Ainda assim, oferece um elemento concreto para avaliar sua passagem pelo Executivo federal.
Para uma eventual candidatura presidencial, participar da construção de políticas nacionais é uma credencial mais consistente do que acumular declarações de apoio. É nesse encontro entre experiência de governo, articulação eleitoral e atuação federativa que Camilo pode representar uma alternativa de renovação.
Aos 58 anos, não é um estreante. Sua possível contribuição está em oferecer ao PT uma liderança de geração posterior à de Lula, com trajetória própria e experiência em diferentes funções públicas. Renovação, contudo, precisa significar mais do que mudança de nomes. O partido terá de demonstrar capacidade de formular respostas para segurança pública, emprego, qualidade dos serviços, equilíbrio das contas e transformações tecnológicas.
Um candidato competitivo deverá conversar com quem já acompanha o PT e com quem mantém reservas ao partido. Nesse ponto, equilíbrio e disposição para negociar podem ser vantagens, desde que acompanhados de posições claras. Moderação sem conteúdo não resolve conflitos. Firmeza sem capacidade de diálogo tampouco constrói as maiorias necessárias para governar. Camilo também enfrentará o desafio de demonstrar que sua força eleitoral pode ultrapassar o Ceará e o Nordeste. Uma candidatura nacional exige reconhecimento em outras regiões, interlocução com setores produtivos e sociais e capacidade de responder a críticas sobre a própria trajetória.
A experiência parlamentar deverá acrescentar resultados a essa construção. A proximidade com Lula será relevante, mas não substituirá essas provas. Uma eventual preferência presidencial terá peso na escolha do candidato; sua viabilidade dependerá também das alianças, do desempenho do próximo governo e da disposição do eleitorado em apoiar a continuidade do projeto.
Camilo chega ao debate de 2030 com razões objetivas para ser considerado. Sua trajetória permite enxergar uma candidatura possível, cuja consistência dependerá do trabalho dos próximos anos. Se conseguir transformar a confiança conquistada em uma proposta nacional reconhecível, poderá disputar a preferência de Lula e, sobretudo, a confiança de um eleitorado mais amplo.
