Ferramentas aceleram pesquisas, análise documental e produção de textos, mas informações precisam ser conferidas e dados profissionais protegidos

Uma ferramenta de inteligência artificial pode resumir dezenas de páginas em segundos, comparar documentos, organizar informações e produzir uma primeira versão de um texto jurídico. A velocidade explica por que esses sistemas começaram a ocupar espaço na rotina profissional. Para o advogado, entretanto, o ganho de produtividade vem acompanhado de riscos que não podem ser transferidos para a tecnologia.

O primeiro deles é elementar: a inteligência artificial pode errar.

E pode apresentar o erro com aparência de informação correta.

Jurisprudência precisa existir

Uma das situações mais graves ocorre quando sistemas generativos apresentam decisões judiciais, números de processos ou referências que parecem verdadeiros, mas não existem ou não correspondem ao conteúdo informado.

Para a advocacia, isso estabelece uma regra prática simples.

A IA pode auxiliar a pesquisa.

Não deve substituir a conferência na fonte.

Antes de utilizar uma decisão em petição, parecer, artigo ou orientação profissional, o advogado precisa localizar o documento original e verificar seu conteúdo.

O mesmo vale para legislação.

Uma norma pode ter sido modificada, regulamentada ou revogada.

O problema do sigilo

Existe outra questão menos visível.

Para utilizar determinados sistemas, o profissional fornece informações.

Quando o material inserido contém nomes, documentos, estratégias processuais, informações empresariais ou outros dados recebidos de clientes, surge uma questão relacionada ao sigilo e à proteção dessas informações.

O advogado precisa compreender como a ferramenta utilizada trata os dados que recebe.

Copiar integralmente documentos confidenciais para qualquer plataforma sem avaliar suas condições de utilização pode criar riscos desnecessários.

Onde a IA pode ajudar

Utilizada com controle profissional, a inteligência artificial pode ser útil em diversas atividades.

Pode auxiliar na organização inicial de documentos.

Pode resumir materiais extensos.

Pode comparar versões de contratos.

Pode ajudar a estruturar informações.

Pode sugerir pontos que mereçam pesquisa adicional.

Pode auxiliar na revisão de linguagem.

Pode contribuir para tarefas administrativas do escritório.

Em todas essas situações existe uma palavra importante: auxiliar.

Onde o advogado precisa assumir o controle

A decisão jurídica não deve ser simplesmente terceirizada para um sistema automatizado.

Cabe ao profissional avaliar os fatos.

Interpretar as normas.

Examinar as provas.

Conferir precedentes.

Identificar riscos.

Definir estratégia.

E decidir o que será apresentado ao cliente ou ao Judiciário.

Quando uma petição é protocolada, não é a ferramenta de IA que responde profissionalmente pelo documento.

Uma rotina simples de segurança

O escritório pode estabelecer um procedimento interno para conteúdos produzidos com auxílio de IA:

1. A ferramenta auxilia.

2. O advogado analisa.

3. As informações são conferidas nas fontes adequadas.

4. Legislação e jurisprudência são verificadas.

5. Dados confidenciais recebem tratamento compatível com as obrigações profissionais.

6. Somente depois o conteúdo é utilizado.

Essa rotina não elimina todos os riscos.

Reduz, entretanto, a possibilidade de que velocidade seja confundida com precisão.

O profissional precisa saber como a ferramenta funciona?

Não precisa tornar-se programador.

Mas precisa compreender as limitações do instrumento que decidiu utilizar.

O advogado não precisa saber construir um automóvel para dirigir.

Precisa, entretanto, conhecer as regras de trânsito, controlar o veículo e saber que determinadas decisões continuam sendo suas.

Com inteligência artificial ocorre algo semelhante.

Conhecer suas limitações passa a fazer parte da utilização profissional responsável.

Eficiência não substitui conhecimento jurídico

A inteligência artificial provavelmente continuará assumindo tarefas repetitivas e aumentando a capacidade de processamento de informações dos escritórios.

Isso pode modificar funções, métodos de trabalho e até modelos de negócio.

Mas existe uma diferença entre produzir um texto juridicamente convincente e tomar uma decisão profissional adequada a determinado cliente.

A segunda atividade exige análise do caso concreto, responsabilidade, conhecimento jurídico e consideração das consequências da orientação adotada.

A pergunta relevante, portanto, não é apenas se o advogado deve ou não utilizar inteligência artificial.

É em quais atividades deve utilizá-la, quais informações pode fornecer ao sistema, como deve conferir o resultado e quem assume a decisão final.

Para essa última pergunta, a resposta continua clara:

o profissional.

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