Por Sabino Henrique

Existem lugares que visitamos. E existem lugares que nos habitam.

Paracuru pertence à segunda categoria.

Há cidades que figuram nos mapas. Outras, porém, permanecem desenhadas na alma. E poucas vezes senti isso com tanta intensidade quanto neste fim de semana de junho, ao retornar àquela faixa luminosa do litoral cearense onde deixei espalhados tantos pedaços da minha própria história.

Paracuru não é apenas uma cidade. É um estado de espírito.

Ali nasceu Antônio Sales, filho ilustre da antiga Vila do Parazinho, romancista, poeta, jornalista e fundador da inesquecível Padaria Espiritual, movimento que ajudou a iluminar a literatura cearense. Talvez por isso aquela terra conserve uma estranha vocação para acolher sonhos, cultivar amizades e guardar memórias.

Foi ali, na praia das Marisqueiras, que a Associação Cearense de Imprensa ergueu, na década de 1960, sua Colônia de Férias dos Jornalistas, em terreno generosamente doado pela Prefeitura Municipal.

Para muitos, era apenas um conjunto de casas à beira-mar.

Para nós, era um pedaço do paraíso.

Nas décadas de 1970 e 1980, frequentei aquele lugar incontáveis vezes ao lado de Auxiliadora e de nossos primeiros filhos. Íamos quase sempre acompanhados do querido amigo Neno, então colega de jornalismo e que, mais tarde, se tornaria nosso compadre.

Ali também dividíamos vizinhança com um dos maiores intelectuais brasileiros, o professor Paulo Bonavides, jornalista´,  primeiro presidente do Sindicsto dos Jornalistas Profissionais do Ceará, depois meu mestre na Faculdade de Direito da UFC. Era comum vê-lo caminhando tranquilamente pelas areias, acompanhado de dona Iêda, sua mulher,  e do jovem Paulinho, desfrutando os mesmos ventos que embalavam nossas férias.

Naquele tempo, a vida parecia caminhar num ritmo diferente.

As tardes eram mais longas.

As conversas mais demoradas.

Os amigos mais próximos.

E os sonhos pareciam caber todos dentro de um pôr do sol.

Anos depois, já proprietário da Fazenda Santo Inácio, situada nas Quatro Bocas, a poucos quilômetros da sede municipal, passei mais de quinze anos mantendo uma convivência quase semanal com Paracuru. Conheci seus carnavais vibrantes, suas festas populares, seus pescadores, suas ruas simples e acolhedoras.

A cidade transformou-se numa extensão natural da minha própria casa.

Por isso, retornar agora, tantos anos depois, foi como abrir um velho álbum de fotografias que o tempo amarelou, mas não conseguiu apagar.

Cada esquina parecia guardar um rosto.

Cada rua carregava uma lembrança.

Cada rajada de vento trazia de volta alguma voz querida.

O motivo da viagem já seria, por si só, suficiente para justificar a emoção.

Fomos convidados — eu, Auxiliadora e o casal amigo Paulo Roberto e Fátima —, pelo nosso dinâmico, corajoso e criativo  presidente, jornalista Eliézer Rodrigues,  para participar da homenagem prestada pela ACI à jornalista Ivonete Maia, cuja memória passou a identificar oficialmente a rua de acesso à Colônia de Férias dos Jornalistas.

Poucas homenagens poderiam ser mais justas.

Ivonete foi uma das grandes referências do jornalismo cearense. Sucedeu-me na presidência do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Ceará e, durante sua gestão, inaugurou a sede própria da entidade.

Guardo uma lembrança especial daquele momento.

Os recursos para aquisição do imóvel haviam sido obtidos anteriormente, quando eu presidia o Sindicato, graças ao apoio do então governador Virgílio Távora. Ver aquela conquista consolidada pela gestão de Ivonete sempre me trouxe um sentimento de dever cumprido.

Agora, ao ver seu nome eternizado naquela rua, compreendi que certas pessoas não desaparecem.

Transformam-se em memória coletiva.

Transformam-se em referência.

Transformam-se em caminho.

E aquela rua, conduzindo à colônia dos jornalistas, parece simbolizar exatamente isso: um percurso de dignidade, luta e compromisso com a informação.

Mas talvez o que mais tenha tocado meu coração tenha sido a convivência daqueles dois dias.

Algo raro nos tempos atuais.

Algo que o mundo digital não consegue reproduzir.

Velhos amigos reunidos.

Histórias reapresentadas.

Risadas reencontradas.

Abraços demorados.

A brisa marinha circulando livremente entre as mesas.

A cerveja gelada refrescando as conversas.

A feijoada reunindo afetos.

E, ao fundo, músicas que pareciam ter atravessado décadas apenas para nos reencontrar.

Ali estavam homens e mulheres que ajudaram a escrever capítulos importantes da imprensa cearense.

Muitos já ultrapassando os setenta anos.

Outros se aproximando dos oitenta.

Todos carregando nos olhos a serenidade que só o tempo concede.

Observando aquela cena, compreendi que envelhecer talvez seja exatamente isso: acumular pessoas, lugares e momentos que passam a viver dentro de nós.

Os anos levam muitas coisas.

Levam a juventude.

Levam a pressa.

Levam as ilusões.

Mas também nos entregam um patrimônio que não pode ser comprado nem herdado.

As lembranças.

E quando a vida nos concede a graça de revisitar os lugares onde elas nasceram, sentimos algo próximo da eternidade.

Ao deixar Paracuru, no domingo pela manhã, olhei mais uma vez para o mar.

O mesmo mar.

As mesmas ondas.

O mesmo horizonte.

E tive a nítida sensação de que o tempo, afinal, não passa por completo.

Parte dele permanece guardada em certos lugares.

Esperando apenas que um dia retornemos para buscá-lo.

Paracuru continua lá.

E, de alguma forma, uma parte de mim continua também.

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