Comissão Temporária debate mudanças estruturais em Direito de Família e Sucessões que podem redefinir herança, casamento e responsabilidade civil
I. O Contexto: 24 Anos de Espera por Modernização
O Código Civil de 2002 completa este ano 24 anos de vigência. Embora tenha representado um avanço significativo na época, especialistas apontam que a legislação está desatualizada em relação às transformações sociais e familiares que ocorreram nas últimas duas décadas. É neste contexto que a Comissão Temporária para Atualização do Código Civil (CTCivil) foi instalada no Senado Federal em 24 de setembro de 2025, com o objetivo de examinar o Projeto de Lei nº 4/2025.
A comissão é presidida pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e tem como relatora parcial de Direito de Família e Sucessões a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS). Desde sua instalação, a CTCivil tem realizado audiências públicas e colhido sugestões de especialistas para aprimorar o projeto.
II. Os Pilares da Reforma: O Que Está em Discussão
A reforma do Código Civil não é uma mudança pontual. Ela toca em três pilares fundamentais do direito privado:
1. Direito de Família
O direito de família é o aspecto mais sensível da reforma. Segundo a senadora Soraya Thronicke, a proposta busca enfrentar “temas delicados” que o código atual não contempla adequadamente. Entre os pontos em discussão estão:
- Casamento e União Estável: Revisão das regras sobre regimes de bens, incluindo a possibilidade de trazer como regime automático de bens novas configurações
- Adoção e Filiação: Atualização das regras sobre adoção, incluindo discussões sobre famílias socioafetivas
- Alienação Parental: Possibilidade de inclusão desta temática no projeto, conforme indicado pela senadora Thronicke
- Divórcio Unilateral: Modernização das regras sobre dissolução do casamento
2. Direito das Sucessões
O Direito das Sucessões é coordenado por Mário Luiz Delgado, relator parcial do livro de Direito das Sucessões. Segundo crítica do IBDFAM (Instituto Brasileiro de Direito de Família), as regras sucessórias atuais são “excessivamente formalistas” e voltadas a um “modelo de família casamentária, patriarcal e patrimonialista”.
Os pontos em discussão incluem:
- Herança e Sucessão: Modernização das regras de partilha de bens
- Direitos Sucessórios: Revisão da discriminação em relação a outros modelos de família
- Curatela: Especialistas alertam para a necessidade de mudanças nas regras de curatela e preferência de nomeação de cônjuge ou pais
3. Direito Civil Digital e Direito das Coisas
A reforma também aborda temas emergentes:
- Direito Digital: Inclusão de regras sobre responsabilidade civil em ambientes virtuais e propriedade digital
- Direito das Coisas: Discussão sobre livre iniciativa e atualização das regras sobre propriedade e posse
- Direito Empresarial: Revisão das regras sobre relações comerciais
III. O Processo Legislativo: Cronograma e Próximos Passos
A CTCivil aprovou um plano de trabalho em outubro de 2025, com previsão de votação até julho de 2026. O cronograma inclui:
- Audiências Públicas: Realizadas desde setembro de 2025, com participação de especialistas, juristas e representantes da sociedade civil
- Discussões Temáticas: Organizadas por livros do Código Civil (Família, Sucessões, Coisas, Empresarial)
- Votação Prevista: Julho de 2026 (conforme plano aprovado)
Até o momento, a comissão realizou discussões sobre:
- Direito de Família e Sucessões (março de 2026)
- Direito das Coisas e Direito Empresarial (abril de 2026)
IV. Os Alertas dos Especialistas
A reforma não é consensual. Especialistas levantam alertas sobre pontos específicos:
- Curatela: Preocupações com as novas regras de curatela e a preferência de nomeação de cônjuge ou pais
- Formalismo: Críticas ao excesso de formalismo nas regras sucessórias
- Modelos de Família: Necessidade de adequação às novas configurações familiares (famílias socioafetivas, casais homoafetivos)
- Direito Digital: Urgência de regras claras sobre responsabilidade civil em ambientes virtuais
V. Impacto Prático para Profissionais do Direito
Para advogados, cartórios, tabelionatos e profissionais do direito , a reforma representa:
Curto Prazo (2026-2027):
- Necessidade de acompanhamento das votações e aprovação final
- Preparação para possíveis mudanças nas práticas de redação de testamentos e contratos
- Atualização de modelos e procedimentos
Médio Prazo (2027-2028):
- Entrada em vigor da nova legislação (após sanção presidencial)
- Adaptação de sistemas e procedimentos nos cartórios
- Revisão de jurisprudência consolidada pelo TJCE
Longo Prazo:
- Consolidação de nova jurisprudência
- Atualização de práticas profissionais
- Possível impacto em casos já em andamento
VI. Questões em Aberto
Alguns pontos permanecem em discussão e não têm definição clara:
- Regime Automático de Bens: Qual será exatamente o novo regime automático de bens para casamentos?
- Alienação Parental: Será incluída no código ou em legislação específica?
- Direito Digital: Como será regulamentada a responsabilidade civil em ambientes virtuais?
- Curatela: Quais serão as mudanças específicas nas regras de curatela?
VII. Conclusão: Uma Reforma Necessária, Mas Complexa
A Reforma do Código Civil é uma iniciativa necessária e bem-vinda. O código de 2002, embora tenha sido moderno em sua época, não acompanhou as transformações sociais dos últimos 24 anos. A inclusão de temas como famílias socioafetivas, direito digital e novas configurações familiares é imperativa.
No entanto, a complexidade da reforma exige cuidado. Cada mudança em direito de família e sucessões afeta milhares de brasileiros e cearenses. A discussão na CTCivil, com participação de especialistas e audiências públicas, é o caminho correto.
Para a advocacia cearense, o recado é claro: acompanhe de perto o andamento dessa reforma. Ela redefinirá a prática jurídica nos próximos anos.

