Por Sabino Henrique

Às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, marcado para 4 de outubro, candidatos, partidos e eleitores acompanham diariamente as pesquisas de intenção de voto. Mas existe um número que talvez mereça atenção tão grande quanto os percentuais atribuídos aos candidatos: o daqueles que não comparecerão às urnas ou que, comparecendo, votarão em branco ou anularão o voto.

Em uma disputa apertada, qual poderá ser o peso desse contingente?

A primeira providência é afastar um equívoco recorrente. Voto branco e voto nulo não são transferidos para nenhum candidato. Também não existe candidato diretamente beneficiado por esses votos.

A legislação estabelece que, na eleição presidencial, é eleito quem obtiver a maioria absoluta dos votos válidos. Brancos e nulos ficam fora dessa conta. Se ninguém alcançar essa maioria no primeiro turno, haverá segundo turno entre os dois candidatos mais votados.

A abstenção é diferente: trata-se do eleitor que não comparece para votar. Evidentemente, seu voto também não integrará o universo utilizado para decidir a eleição.

Portanto, brancos, nulos e abstenções podem reduzir, em números absolutos, o universo de eleitores que efetivamente participará da escolha do presidente. Mas isso não significa que automaticamente favoreçam um determinado candidato.

Uma disputa apertada

A pesquisa Quaest divulgada em 21 de setembro ajuda a dimensionar o cenário.

Lula aparece com 37% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 33%. Augusto Cury registra 6%, Ronaldo Caiado, 4%, Renan Santos, 3%, e Romeu Zema, 1%.

Brancos e nulos somam 7%, enquanto 8% dos entrevistados se declaram indecisos.

A Quaest entrevistou 2.004 eleitores entre 17 e 20 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança informado é de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-06004/2026.

Os números mostram uma disputa competitiva, mas não autorizam afirmar que qualquer candidato esteja próximo de uma vitória assegurada no primeiro turno.

E pesquisas são fotografias do momento em que foram realizadas. Não são previsões do resultado das urnas.

A abstenção entra nas análises

A possibilidade de a abstenção interferir politicamente na disputa vem sendo examinada por pesquisadores.

Cila Schulman, CEO do Instituto IDEIA, afirmou em agosto que, na sua avaliação, o PT tende a ser mais prejudicado pela abstenção.

O argumento apresentado por ela está relacionado ao perfil socioeconômico dos eleitores que deixam de comparecer às urnas. Segundo Schulman, brasileiros de menor renda apresentam maior tendência à abstenção, e esse é também um segmento no qual Lula registra apoio eleitoral relevante.

É importante observar exatamente o que essa análise significa.

Schulman apresentou uma interpretação baseada no comportamento eleitoral de determinados grupos. Isso não permite concluir que cada eleitor que se abstiver representará um voto perdido por Lula, nem que toda elevação da abstenção produzirá necessariamente vantagem para Flávio Bolsonaro.

A distribuição da abstenção entre regiões, faixas de renda, idade, escolaridade e diferentes preferências políticas será decisiva para determinar seus efeitos.

Mais recentemente, em 9 de setembro, ao comentar pesquisa Meio/IDEIA que apontava empate entre Lula e Flávio Bolsonaro em uma simulação de segundo turno, Schulman voltou a mencionar abstenção, votos brancos e nulos entre os fatores que poderão pesar numa eleição equilibrada.

Sua definição talvez seja uma das mais adequadas para o momento: será uma eleição decidida “no detalhe”.

A hipótese de Maurício Moura

Maurício Moura, fundador do Instituto IDEIA, também tratou da possibilidade de uma definição da eleição no primeiro turno.

Em entrevista reproduzida pela imprensa em setembro, Moura afirmou que não consideraria surpreendente uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro já na primeira votação.

Mas sua análise envolve uma combinação de fatores, e não apenas abstenção, brancos e nulos.

Entre os elementos mencionados pelo pesquisador estão a concentração do eleitorado nos principais candidatos, o comportamento do chamado voto útil ou estratégico e o grau de desengajamento eleitoral.

Moura também relacionou a abstenção ao perfil socioeconômico do eleitorado, argumentando que ela tende a atingir segmentos de baixa renda e escolaridade nos quais Lula possui presença eleitoral importante.

Novamente, trata-se de uma avaliação de um pesquisador, e não de uma previsão comprovada sobre o resultado de 4 de outubro.

Felipe Nunes aponta outra variável

Há outras interpretações sobre quais grupos poderão ser determinantes.

Felipe Nunes, diretor da Quaest, afirmou em julho que o eleitor independente — aquele que não se identifica claramente com os dois principais campos políticos — teria papel relevante na eleição.

Nunes chamou atenção para uma parcela do eleitorado que não está firmemente vinculada nem ao lulismo nem ao bolsonarismo.

Essa análise acrescenta uma variável importante à discussão: talvez o resultado não dependa apenas de quem deixará de votar, mas também de como votarão aqueles que ainda podem mudar de candidato.

À medida que a eleição se aproxima, voto estratégico, migração entre candidaturas, indecisão e comparecimento às urnas passam a interagir.

O que aconteceu em 2022

O tamanho da abstenção não é uma questão meramente teórica.

Segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, no primeiro turno de 2022 havia 156.454.011 eleitores aptos. Compareceram 123.682.372.

A abstenção foi de 32.770.982 eleitores, ou 20,95% do eleitorado.

Houve ainda 3.487.874 votos nulos e 1.964.779 votos em branco.

Os votos válidos totalizaram 118.229.719.

Naquela eleição, Lula recebeu 48,43% dos votos válidos e Jair Bolsonaro, 43,20%, levando a disputa para o segundo turno.

Os números mostram a dimensão do contingente que, por diferentes razões, não participou da escolha entre candidatos por meio de um voto válido.

Mas os resultados de 2022 também não podem ser simplesmente transportados para 2026. São eleições diferentes, com candidatos, circunstâncias políticas e comportamento eleitoral próprios.

Afinal, quem a abstenção beneficia?

Essa talvez seja a pergunta central — e a resposta responsável, neste momento, é: não sabemos.

Há pesquisadores, como Cila Schulman e Maurício Moura, que apresentam razões para considerar que uma abstenção elevada possa atingir proporcionalmente segmentos importantes do eleitorado de Lula.

Se essa hipótese se confirmar nas urnas, poderá haver um efeito relativo favorável aos adversários do presidente, entre eles Flávio Bolsonaro.

Mas isso dependerá de onde ocorrer a abstenção e de quais eleitores efetivamente deixarem de votar.

Da mesma forma, não se pode transformar a existência de votos brancos e nulos em votos presumidos para qualquer candidato.

Eles simplesmente não entram na contagem dos votos válidos.

A conta de 4 de outubro

Talvez esta eleição exija que, na noite de 4 de outubro, observemos três números diferentes.

O primeiro será a votação de Lula.

O segundo, a de Flávio Bolsonaro e dos demais candidatos.

E o terceiro será menos lembrado, embora politicamente importante: quantos brasileiros aptos a votar não participaram da escolha por meio de um voto válido.

Esse terceiro número poderá ajudar a compreender o resultado.

Poderá contribuir para uma decisão no primeiro turno ou influenciar quais candidatos chegarão ao segundo. Mas somente depois da abertura das urnas será possível saber quem, de fato, foi mais afetado pelo comparecimento ou pela ausência dos eleitores.

Até lá, qualquer afirmação categórica de que a abstenção elegerá Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato ultrapassa aquilo que pesquisas e estatísticas permitem demonstrar.

Em uma eleição tão disputada, talvez a prudência seja justamente esta:

não tentar transformar uma possibilidade estatística em resultado eleitoral antes que o eleitor vote.

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