Na imagem acima “No restaurante “Policia”, em Lisboa, da esquerda para a direita, Lucio Brasileiro, Sylowa e Sabino Henrique”
“Artista é aquele que pinta seus quadros com toda a técnica possível; gênio é aquele que vai além da técnica.” — Christian Brinton
Há homens que passam pela vida deixando fotografias. Outros deixam livros. Alguns, monumentos.
Lúcio Brasileiro deixou uma maneira de viver.
Quando a notícia de sua partida chegou de Lisboa, naquela manhã de 23 de abril de 2026, não morreu apenas o mais longevo colunista social do Brasil. Encerrou-se um modo elegante de compreender as pessoas, a amizade e a própria vida. No momento, tive a nítida impressão de que a cidade sepultava um pedaço de sua própria memória.
Poucos homens conseguiram ser tantos em um só.
Francisco Newton Quezado Cavalcante nasceu em Aurora, no Cariri cearense, em 6 de abril de 1939. Mas Lúcio Brasileiro nasceu em Fortaleza. Não no registro civil. Nasceu nas redações, nos clubes, nos salões, nas conversas intermináveis e, sobretudo, na extraordinária capacidade de observar as pessoas. Depois, mas ao mesmo tempo, o Paco, para os amigos.
Entrou adolescente no jornalismo e nunca mais saiu dele.
Durante mais de sete décadas escreveu sua coluna sem interrupção. Não fazia apenas jornalismo social. Contava a história do Ceará através de seus personagens. Misturava política, cultura, economia, comportamento, religião, gastronomia, viagens e amizade numa linguagem que só ele possuía.
Os fatos eram apenas o pretexto.
O verdadeiro assunto sempre foi o ser humano.
Conheci Lúcio ainda à distância, no final da década de 1960, quando transitava pela redação do “Correio do Ceará” e do “Unitário”. Anos depois, a vida aproximou nossos caminhos.
Vieram os almoços, as confidências, as alegrias familiares.
Foi padrinho de batismo de minha filha Milena e conservou, durante anos, uma pequena mágoa, bem-humorada, porque Leonardo não lhe fora entregue para o mesmo privilégio. Padrinho de casamento do Henrique Daniel, Milena e Leonardo. Mais tarde guardaria, afetivamente, também Carlos Henrique, tratando meus filhos como se fossem seus.
Na nossa casa, na Tabuba, que carinhosamente apelidou de “Estalagem Dois Sertões”, onde costumeiramente almoçávamos em encontros de longas e risíveis conversas, “Silowa como também apelidou a Auxiliadora, antes chamada por êle de “Cili Junior”, recebia-lhe de coração aberto:
– Isto é hora Brasileiro! Pode entrar, casa é sua! Estamos de braços abertos como a porta rua”.
Ela e eu, de longas viagens a Portugal, Barcelona e Ibiza, locais de lembrados réveillons e fatos jocosos.
Poucos sabem de um gesto que resume o homem.
Nós, e o casal Josué e Branca de Castro, fomos os únicos a receber um cartão permanente autorizando nossos filhos a utilizarem a piscina de sua casa na Rua Caio Cid, estivesse ele presente ou não.
Não era um simples cartão.
Na verdade, era um diploma de amizade.
Lúcio não dizia “eu gosto de você”.
Ele demonstrava.
Tinha um temperamento raro.
Jamais alimentava ódio.
Mas possuía explosões.
Eram tempestades rápidas, que assustavam quem o conhecia pouco. Depois, quase sempre, chegava um envelope amarelo. Dentro dele, um cartão escrito com sua letra firme, elegante e inconfundível.
Não havia pedido explícito de desculpas.
Também não era necessário.
Quem conhecia Lúcio entendia que aquele bilhete era a tradução mais sincera do seu afeto.
Perfeccionista quase obsessivo, cumpria horários como quem cumpre uma liturgia. A elegância não era um traje; era disciplina.
Jamais utilizou o prestígio para enriquecer.
Viveu do jornalismo, de seus empreendimentos e, algumas vezes, da generosidade de amigos que o admiravam exatamente por sua independência.
Era livre porque nunca colocou preço na própria opinião.
Sua geografia sentimental merece um mapa.
O Ideal Clube e a inesquecível Turma do Líbano moldaram o jovem cronista.
O Náutico, o Country, o Massapeense, o Maguary, tornaram-se extensões naturais de sua convivência.
Na cobertura do Iracema Plaza Hotel viveu quinze anos graças à generosidade de Chico Philomeno e de dona Beatriz. Ali nasceu uma das fases mais glamorosas de sua existência. Foi também por sua inspiração que surgiu o lendário restaurante Panela.
A vida, que gosta dessas coincidências discretas, ainda escreveria outro capítulo.
Meu filho Leonardo, que quase foi seu afilhado de batismo, casaria anos depois com Beatriz Philomeno, neta daquele casal que tanto estimava.
Como se Lúcio continuasse ligando pessoas através do tempo.
Houve também a casa da Rua Caio Cid.
As temporadas no Icaraí, na residência do amigo Aliatar Bezerra.
João Soares Neto, nos primórdios de Fortaleza e do Rio Parazinho, que separa Icarai da Tabuba.
Luiz Frota e Lorena e Edilmar e Lucila Norões, amigos inseparáveis por toda a vida
As temporadas elegantes em Guaramiranga.
As viagens de trem para Canhotinho, ao lado do senador José Dias Macedo e de dona Maria.
As praias de Majorlândia, cercado pelo carinho de Salomão Pinheiro Maia e d. Alair. Jório e Teresa da Escóssia com a casa sempre lotada, nos longos fins-de-semana.
A Barra do Ceará, onde descobriu um pôr do sol, capaz de encantar até dona Yolanda Queiroz, esposa do Edson Queiroz, seu grande amigo.
Mas nenhuma paisagem o definiu tanto quanto o Cumbuco.
Ali encontrou seu porto definitivo.
Primeiro, a “La Belle Aurora”, de portas permanentemente abertas.
Depois, o Ugarte!
Não era apenas um restaurante. A cozinha cearense ganhava refinamento, a música romântica encontrava seu cenário ideal, os réveillons tornavam-se acontecimentos e os amigos descobriam que a verdadeira sofisticação mora na simplicidade bem executada.
Era um estado de espírito!
No sonho realizado, transformou a praia do “Horizonte Novo” em lenda.
Nas tardes de quinta-feira, atravessava as dunas de bugue apenas para assistir ao pôr do sol. Os pescadores e moradores locais, tratados por ele com o humor afetuoso de “índios Graviolas”, serviam bebidas e petiscos enquanto o céu desenhava espetáculos que nenhuma fotografia conseguiria reproduzir.
O “Rancho da Fantasia”, na Taiba, com Sá Jr. e Isabel, mergulhava nas estórias que perseguiam nossas vidas, e agora, doces saudades.
Lúcio compreendia que certos lugares existem para serem sentidos, nunca explicados.
Viajou muito.
A China abriu-lhe as portas do mundo.
Os Estados Unidos jamais lhe conquistou o coração.
Na França, estudou francês, em Vichy, durante sucessivos invernos.
Mas foram Barcelona e, sobretudo, Ibiza que lhe roubaram definitivamente a alma.
Tanto que deixou registrado o desejo de que suas cinzas encontrassem repouso naquele mar azul que muito amou.
Foi amigo de gerações da família Dias Branco, desde Ivens e dona Consuelo, até os filhos e netos.
Cultivou amizades profundas com Vilma Patrício, na “Pensão Vidigal”, companheira atenta de alegres momentos no Ugarte, com toda a benquerença de sua família.
A “Lagoa da Banana”, de Tonzito e Ana Cavalvante e as longas conversas das tardes no “Sabor da Praia”
Paulo e Odete Aragão, no “Albergue Universitário”; Adriano e Regina Josino, com o “Cine Pedra da Costa”.
Aristófanes e Vânia Canamary e suas cativantes feijoadas dos sábados.
Marcos Laje, Edilmo Cunha e o Paulo Sergio, que construiu o restaurante “Ibiza”, aberto só para receber o Paco e seus amigos.
Beto Studart, que tantas homenagens lhe prestou.
Jamais esqueceu daqueles que serviram sua casa e sua vida com lealdade: dona Ritinha, Astro, Aldenor e Evandro, o motorista atento que parecia antecipar seus pensamentos.
Para Lúcio, gratidão nunca foi cerimônia.
Era caráter.
Hoje, olhando para trás, compreendo que ele nunca foi apenas um cronista social.
Era um cronista da alma humana.
Sabia reconhecer grandezas escondidas em pessoas simples e, ao mesmo tempo, enxergava pequenas vaidades escondidas sob grandes sobrenomes.
Talvez por isso tenha atravessado setenta anos de jornalismo sem perder a credibilidade.
Escrevia sobre pessoas. Mas escrevia, sobretudo, com humanidade.
Agora que sua cadeira ficou vazia e sua voz silenciou, Fortaleza parece um pouco menos elegante.
As tardes parecem chegar mais cedo.
Os clubes conversam mais baixo.
O pôr do sol do Cumbuco perdeu um dos seus mais fiéis admiradores.
Mas homens assim não desaparecem.
Continuam vivendo na memória dos amigos, nos cartões amarelados guardados em gavetas, nas fotografias antigas, nos almoços de domingo, nas histórias repetidas inúmeras vezes e, principalmente, naquele privilégio que poucos alcançam.
O de transformar amizade em patrimônio.
Adeus, meu compadre.
Adeus, meu amigo.
Obrigado por ensinar a tantas gerações que a verdadeira elegância nunca esteve na roupa, nem nos salões, nem nas festas.
Sempre esteve no coração.
Lucio Brasileiro despediu-se de Fortaleza na noite do dia 10 de abril de 2026 e do mundo, em Lisboa, na manhã do dia seguinte, 11 de abril de 2026.
