Especialista afirma que, em processos de massa, a metodologia utilizada nos cálculos pode ter impacto maior que a própria tese jurídica, influenciando provisões, governança e resultados das empresas.

CÁLCULOS DEFINEM O PESO DAS AÇÕES COLETIVAS

Especialista destaca que a matemática se tornou fator decisivo na mensuração de passivos e na estratégia de defesa das empresas

O crescimento das ações coletivas tem se consolidado como um dos principais desafios jurídicos e financeiros enfrentados pelas empresas brasileiras em 2026. Além do aumento do volume de processos, especialistas apontam uma evolução significativa na sofisticação das teses apresentadas e no uso de tecnologia para identificação de supostas falhas sistêmicas.

Com associações e sindicatos mais estruturados, acesso ampliado a dados trabalhistas e fiscais e ferramentas capazes de cruzar grandes volumes de informações, situações que antes geravam discussões pontuais passaram a alcançar milhares de contratos simultaneamente.

Segundo Paulo Souza, sócio responsável pela área de Cálculos Judiciais da Bernhoeft, o impacto dessas ações vai muito além da discussão jurídica.

“O verdadeiro campo de batalha, em muitos casos, não está mais na tese, mas na metodologia utilizada para calcular os valores envolvidos”, observa.

De acordo com o especialista, em diversas ações coletivas o mérito da demanda é definido rapidamente, enquanto a discussão sobre o valor da condenação se torna o elemento central do processo.

“A definição do quantum é que determina se o impacto financeiro será administrável ou se comprometerá resultados, provisões e até mesmo a percepção do mercado sobre a governança da companhia”, afirma.

METODOLOGIA PODE INFLAR PASSIVOS

Um dos erros mais frequentes das empresas, segundo Paulo Souza, é tratar ações coletivas como uma simples multiplicação de ações individuais.

Essa abordagem, alerta o especialista, ignora que processos de massa exigem análise criteriosa da metodologia apresentada pela parte autora.

Amostragens genéricas, utilização de premissas homogêneas e aplicação indiscriminada de índices podem inflar significativamente os valores envolvidos.

Quando diferenças operacionais reais deixam de ser consideradas, o resultado final tende a apresentar distorções relevantes.

Por isso, a estratégia de defesa não deve se limitar à revisão de cálculos, mas envolver também saneamento de dados, segregação de grupos, identificação de prescrições e análise detalhada das particularidades existentes entre unidades, cargos, funções e períodos contratuais.

“É justamente na individualização em escala que está uma das principais ferramentas de defesa das empresas”, destaca.

GESTÃO DE RISCOS E GOVERNANÇA

Além do aspecto processual, cálculos bem estruturados exercem papel fundamental na gestão empresarial.

Ao conhecer com maior precisão a dimensão do risco, a empresa consegue tomar decisões mais assertivas e reduzir incertezas.

Nesse contexto, o departamento jurídico passa a contar com informações técnicas mais consistentes para sustentar teses processuais, enquanto a área financeira consegue realizar provisões mais próximas da realidade.

A consequência é uma gestão mais eficiente dos recursos e uma redução dos impactos indevidos sobre indicadores financeiros, como o EBITDA.

Em companhias auditadas ou com prestação de informações ao mercado, os reflexos ultrapassam o contencioso judicial e alcançam diretamente aspectos relacionados à governança corporativa e à credibilidade financeira.

TECNOLOGIA E SIMULAÇÃO DE CENÁRIOS

O avanço tecnológico também tem transformado a forma como os passivos são analisados.

Ferramentas integradas a bases oficiais de dados, associadas a metodologias de dupla checagem e auditoria técnica, permitem a realização de simulações rápidas, rastreáveis e auditáveis.

Segundo Paulo Souza, a capacidade de projetar cenários antes de audiências, julgamentos ou negociações relevantes tornou-se um diferencial estratégico importante.

Essa análise permite avaliar acordos extrajudiciais com base em números concretos, reduzindo incertezas e proporcionando decisões mais seguras para empresas e advogados.

REDUÇÃO DE CONFLITOS

A transparência e a consistência técnica dos cálculos também favorecem a redução do contencioso.

Quando os números apresentados são claros, auditáveis e sustentados por metodologia adequada, o ambiente de negociação tende a se tornar mais racional.

Como resultado, disputas costumam ser resolvidas em menor tempo, acordos tornam-se mais equilibrados e os custos globais do litígio podem ser significativamente reduzidos.

Para o especialista, a previsibilidade técnica reduz assimetrias de informação e contribui para soluções mais eficientes.

MATEMÁTICA COMO FERRAMENTA ESTRATÉGICA

Na avaliação de Paulo Souza, o Judiciário brasileiro caminha para uma realidade cada vez mais orientada por dados.

Nesse cenário, a matemática deixou de ser apenas uma atividade operacional e passou a desempenhar papel estratégico na gestão dos passivos empresariais.

“As empresas que compreendem que a defesa de massa começa pelo saneamento técnico dos números não apenas reduzem passivos, mas ganham previsibilidade, credibilidade e segurança para crescer em um ambiente jurídico cada vez mais complexo”, conclui.

Paulo Souza é sócio e responsável pela área de Cálculos Judiciais da Bernhoeft.

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