Especialista Vanessa Fernandes analisa como a automação jurídica evidencia a necessidade de mediação humana em planejamentos sucessórios complexos.
O avanço da inteligência artificial (IA) no mercado jurídico tem acelerado a padronização de contratos e a estruturação de holdings familiares. Contudo, essa automação crescente tem exposto os limites práticos das soluções puramente tecnológicas diante da complexidade das relações humanas. A avaliação é da advogada Vanessa Fernandes, especialista em planejamento patrimonial e sócia fundadora da Fernandes Tobias Advocacia, Fernandes Tobias Global Advisors e da MAVA Contabilidade Patrimonial, que alerta para os riscos de ignorar os conflitos subjetivos em processos de sucessão.
Levantamentos recentes de mercado apontam que 83% dos profissionais acreditam que a IA aumentará a importância de habilidades essencialmente humanas, como empatia, pensamento crítico e tomada de decisão. Essa tendência é reforçada por um estudo publicado em 2025 por pesquisadores do INSEAD e da Copenhagen Business School. A pesquisa identificou um aumento expressivo na demanda por competências cognitivas complexas e sociais em ambientes altamente expostos à automação tecnológica.
Nos últimos anos, as holdings familiares consolidaram-se no mercado como mecanismos eficientes de governança, proteção de ativos e planejamento tributário. No entanto, Fernandes ressalta que o setor passou a tratar famílias empresárias como meras operações societárias. Embora a holding organize regras sucessórias e proteja o patrimônio no papel, ela é incapaz de neutralizar disputas silenciosas, rivalidades históricas e desequilíbrios emocionais entre herdeiros.
De acordo com a especialista, a ausência de diálogo e as disputas de reconhecimento familiar costumam emergir em momentos críticos, como na transição geracional ou em episódios de doença do patriarca. Quando esses conflitos não são mediados previamente, a rigidez das estruturas societárias sofisticadas falha em suportar a pressão interna. O resultado costuma ser a judicialização familiar, a ruptura de confiança e a destruição gradual da capacidade de continuidade da empresa.
A obsessão por neutralidade jurídica e a reprodução de modelos contratuais replicáveis pela IA podem gerar uma falsa sensação de segurança. Para Vanessa Fernandes, a preservação do patrimônio e a continuidade dos negócios dependem diretamente da capacidade de administrar as relações humanas antes que elas se convertam em litígios irreversíveis. Assim, as competências de mediação e leitura interpessoal consolidam-se como pilares centrais e insubstituíveis para o sucesso do planejamento sucessório.
