Obra de Bàbá Sidnei Nogueira e Hédio Silva Jr. aborda pluralidade, democracia, liberdade de crença e intolerância religiosa
O que acontece quando uma única visão de mundo passa a ocupar espaços que deveriam ser plurais? Essa é uma das questões centrais de O perigo de uma religião única, novo livro de Bàbá Sidnei Nogueira, escritor, pesquisador e doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), e do advogado Hédio Silva Jr., mestre e doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Publicado pela Editora Planeta, o livro foi apresentado na Câmara Municipal de São Paulo e propõe uma reflexão sobre os limites entre religião, poder, democracia, liberdade de crença e direitos.
Inspirada no conceito de “o perigo de uma história única”, desenvolvido pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, a obra leva essa discussão para o campo religioso. Os autores investigam o que pode ocorrer quando determinadas crenças, narrativas e valores passam a influenciar a definição do que uma sociedade considera legítimo, aceitável ou verdadeiro.
Religião, poder e democracia
A obra analisa como discursos religiosos podem ser instrumentalizados para legitimar práticas de exclusão e violência e como seus efeitos podem ultrapassar o campo da fé, alcançando temas como racismo, educação, comunicação, política, direitos e liberdade religiosa.
A proposta, segundo os autores, não é estabelecer qual religião estaria certa ou errada nem questionar a experiência individual da fé. A discussão se concentra em outra questão: o que acontece quando uma determinada perspectiva religiosa passa a reivindicar para si o papel de referência para toda a sociedade?
Nesse contexto, a liberdade religiosa é apresentada não apenas como o direito individual de professar uma crença, mas também como a possibilidade de diferentes tradições e visões de mundo coexistirem sem que uma delas determine os limites de existência das demais.
É nesse ponto que o debate se aproxima dos princípios do Estado laico e da democracia.
Os autores também examinam como determinados discursos religiosos podem contribuir para a sustentação de posições racistas, misóginas e LGBTfóbicas e para o fortalecimento de mecanismos de exclusão social.
O debate sobre racismo religioso
O livro relaciona ainda a intolerância religiosa ao racismo e questiona estruturas de poder e narrativas consideradas dominantes.
Em um dos trechos, os autores afirmam que o enfrentamento ao racismo exige o questionamento de “mitos, histórias e subjetividades dominantes” que sustentam determinadas formas de poder.
Para Bàbá Sidnei Nogueira, o problema surge quando uma religião deixa de conviver com a diversidade e passa a pretender estabelecer padrões de comportamento para toda a sociedade.
“Uma religião se torna perigosa para a democracia quando deixa de querer compartilhar o mundo e passa a querer definir como todos devem viver nele.”
O autor acrescenta que a liberdade de crença pressupõe também o respeito àqueles que possuem outras crenças ou que não professam nenhuma religião.
Duas trajetórias em torno de uma mesma questão
A discussão proposta em O perigo de uma religião única também resulta do encontro entre as trajetórias dos dois autores.
Bàbá Sidnei Nogueira é escritor, pesquisador, linguista e arte-educador, mestre e doutor em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo (USP). Iniciado há 40 anos para Ṣàngó, está à frente da Casa de Xangô e é membro consultivo da Cátedra de Sustentabilidade da UNESCO (SOST). É autor de Intolerância Religiosa, obra finalista do Prêmio Jabuti, entre outros títulos.
Hédio Silva Jr. é advogado, mestre e doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Sua trajetória é dedicada à defesa dos direitos raciais e da liberdade religiosa. Ògá, é fundador do Jusracial e do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (IDAFRO), com atuação jurídica relacionada à igualdade racial e aos direitos das religiões de matriz africana.
No livro, os dois percursos se encontram. Bàbá Sidnei contribui com sua formação em linguagem e Semiótica e com os saberes construídos a partir de sua trajetória no Candomblé. Hédio Silva Jr. incorpora ao debate a perspectiva do Direito e de sua atuação na defesa de direitos.
A partir desses diferentes campos, os autores discutem como religião, linguagem e poder interferem concretamente na vida em sociedade.
Sobre Bàbá Sidnei Nogueira
Bàbálórìṣà Sidnei Nogueira é escritor e pesquisador. Sua trajetória tem como uma de suas referências o terreiro como espaço de produção de conhecimento, ética e ação política.
Filho da Ìyálórìṣà Joesia Teles de Oyá e do Ọ̀gá Plácido de Ògún, é iniciado há 40 anos para o Òrìṣà Ṣàngó.
Doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo, Bàbá Sidnei articula pensamento acadêmico e saberes ancestrais em reflexões sobre relações étnico-raciais, racismo religioso e formas de violência que atingem as religiosidades afro-brasileiras. Também é membro consultivo da UNESCO – SOST.
Autor de diversos livros, entre eles Intolerância Religiosa, finalista do Prêmio Jabuti 2021, tornou-se referência no debate sobre racismo religioso, colonialidade e liberdade de crença no Brasil.
Em 2026, lança a edição revisada e ampliada da obra, retomando uma discussão sobre religião, racismo e violência no Brasil contemporâneo.
Serviço
Livro: O perigo de uma religião única
Autores: Bàbá Sidnei Nogueira e Hédio Silva Jr.
Editora: Planeta
Páginas: 224
ISBN: 978-85-422-4177-8
