Artigo

“Lulismo e Bolsonarismo: Herdeiros do Getulismo e a Personalização da Política Brasileira (1930–2025)”

Um estudo sobre carisma, ideologia e poder no Brasil contemporâneo

Capítulo 1 – O Getulismo e a Formação do Estado Carismático Brasileiro

A história política brasileira do século XX não pode ser compreendida sem o nome de Getúlio Dornelles Vargas. Sua presença se projeta como sombra e modelo: o líder que falava “ao povo e em nome do povo”, que governava centralizando o poder, mas se apresentava como o defensor dos fracos. A partir de 1930, com a Revolução que o levou ao poder, o Brasil inaugura uma nova era política — a era do Estado carismático.

O nascimento do líder nacional
Vargas ascende num país agrário, desigual, fragmentado por oligarquias regionais. Representa, ao mesmo tempo, ruptura e continuidade: rompe com as velhas estruturas do café-com-leite, mas mantém o poder concentrado no Estado. Sua liderança combina modernização econômica e personalização política.
O Estado Novo (1937–1945) consolidará esse estilo. Nele, Vargas se faz “pai dos pobres”, título cunhado por sua política trabalhista, e transforma o Estado em mediador direto entre capital e trabalho. Criou o Ministério do Trabalho, a Justiça do Trabalho e, em 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) — uma das mais amplas legislações sociais da América Latina.

A propaganda oficial, a voz do rádio e o controle dos sindicatos atrelados ao governo construíram uma imagem duradoura: o Estado como protetor e o líder como encarnação da nação. O povo não participava; aplaudia. O voto era secundário diante do carisma.

O Estado desenvolvimentista e o pacto social
O getulismo fundou o modelo do Estado desenvolvimentista, cuja missão era industrializar o país e integrar o povo ao mercado de trabalho. Esse modelo combinava:

nacionalismo econômico,

intervenção estatal,

e uma narrativa moral de progresso e harmonia entre as classes.

O “trabalhador” virou símbolo de cidadania. A identidade popular passou a depender do Estado e do líder. Vargas compreendeu o valor simbólico do emprego, do salário e da carteira assinada — e os converteu em instrumentos de legitimação política.

Essa aliança entre trabalhador, Estado e líder criaria raízes profundas. Mesmo após sua morte, o getulismo sobreviveu como mentalidade: a crença de que o governo é o pai protetor e o presidente, o intérprete das angústias do povo.

A sucessão carismática: de Juscelino a Jango
Depois de 1945, o Brasil buscou conciliar democracia e legado getulista. Juscelino Kubitschek retomou o espírito de otimismo e progresso com o lema “Cinquenta anos em cinco”. Modernizou o país, expandiu a indústria automobilística e construiu Brasília, mas manteve a lógica desenvolvimentista e o culto à figura presidencial.
Jânio Quadros, com sua vassoura simbólica e gestos teatrais, tentou reinventar o populismo moralista.
João Goulart (Jango), herdeiro direto do trabalhismo, buscou um populismo sindical, defendendo reformas de base e aproximando-se dos movimentos sociais. Sua deposição em 1964 interrompeu a tentativa de recriar o elo emocional entre povo e líder.

O legado duradouro
O getulismo deixou ao Brasil um tripé duradouro:

O Estado como protetor das classes subalternas;

O líder carismático como figura de mediação e esperança;

O povo como espectador mobilizado por emoções, não por partidos.

Esses elementos voltariam a se repetir, sob novas formas, no lulismo e no bolsonarismo — movimentos opostos na ideologia, mas gêmeos na estrutura simbólica.
Ambos são herdeiros do modelo inaugurado por Vargas: o presidente que fala direto ao coração da massa e promete redenção pela vontade do líder.

Capítulo 2 – Do Regime Militar à Nova República: tecnocracia e a espera por um novo líder

A morte de Getúlio Vargas, em 1954, encerrou uma era, mas não seu legado. O povo perdera o “pai”, e o país, o centro simbólico de unidade. O vácuo deixado por sua ausência atravessaria as décadas seguintes. Os presidentes civis que o sucederam – Café Filho, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart – tentaram, cada um à sua maneira, vestir o manto do carisma, mas sem o mesmo poder de encantamento. Quando Jango foi deposto pelo golpe de 1964, o Brasil mergulhou em vinte anos de governo militar e tecnocrático, onde a política das emoções deu lugar à racionalidade fria dos generais e economistas.

A modernização autoritária
O regime militar consolidou o Estado desenvolvimentista sem democracia. No início, justificou-se como “revolução redentora”, prometendo combater a corrupção e o comunismo. Rapidamente, porém, tornou-se um projeto de poder centralizado, sustentado por censura, repressão e tecnocracia econômica.

Os governos Costa e Silva e Médici promoveram o chamado “milagre econômico”: crescimento acelerado, grandes obras, endividamento externo e desigualdade crescente. O povo voltou a ser espectador – agora sob vigilância.

A figura carismática deu lugar ao símbolo da ordem: o fardado, o burocrata, o engenheiro. O culto à eficiência substituiu o discurso popular.
Mas a cultura política moldada por Vargas não desapareceu: o Estado seguia paternalista, e a crença na autoridade do presidente como salvador nacional permanecia latente.

A transição e a fadiga autoritária
Nos anos 1970, a repressão começou a perder legitimidade. A inflação corroía o milagre, e o país exigia abertura. Com Geisel e Figueiredo, a transição lenta e controlada (“distensão”) preparou o retorno à democracia, mas sem líderes de massas. A sociedade redescobria o voto, mas não reencontrava o carisma.

Em 1984, o movimento Diretas Já reacendeu o entusiasmo popular. Era uma multidão sem chefe único, pedindo participação. O primeiro presidente civil, Tancredo Neves, morreu antes da posse, e José Sarney herdou o cargo. O novo regime nascia com esperança e fragilidade.

O retorno à política e a crise de credibilidade
Sarney administrou a transição e a hiperinflação; seu governo simbolizou a improvisação democrática. Em 1989, o Brasil votou novamente para presidente. Entre dezenas de candidatos, surgiu o primeiro líder carismático pós-Vargas: Fernando Collor de Mello. Jovem, atlético, moralista, prometia caçar marajás e modernizar o país.
Collor encarnou o populismo midiático da era televisiva, mas sucumbiu ao mesmo destino de Jânio: personalismo, isolamento e queda.

Com Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, os anos 1990 consolidaram a estabilidade institucional. O Plano Real trouxe credibilidade, e o país ingressou no século XXI com inflação controlada e democracia consolidada – mas sem paixão. A política brasileira se tornara técnica, econômica e burocrática.

A figura do sociólogo no poder representava o oposto do populismo: razão, previsibilidade e moderação. Era o Brasil dos planos, não das emoções.

A espera por um novo mito
Mas sob a superfície institucional, a sociedade ansiava por um novo intérprete popular. O povo continuava a acreditar em líderes providenciais, não em instituições.
O Brasil da transição democrática modernizou sua economia, mas não superou o padrão emocional do getulismo: esperava alguém que falasse sua língua, compreendesse suas dores e prometesse redenção.

Essa espera terminaria em 2002, quando um ex-metalúrgico do agreste pernambucano, de fala simples e história épica, transformaria a esperança popular em projeto político.
Surgia, enfim, o lulismo.

Capítulo 3 – O Lulismo: inclusão, carisma e pragmatismo

O Brasil do início dos anos 2000 vivia uma contradição: estabilidade econômica e desencanto político. As reformas dos anos 1990 haviam controlado a inflação, mas ampliado as desigualdades. A democracia sobrevivia, mas sem alma. Foi nesse terreno que germinou o fenômeno do lulismo — mais do que um partido, uma forma de relação entre o povo e o poder.

O surgimento do líder
Luiz Inácio Lula da Silva surgiu como personagem improvável. Operário nordestino, sindicalista, sem formação acadêmica, trazia no corpo e na fala a memória da pobreza. Sua trajetória resumia o sonho nacional de ascensão: “um de nós chegou lá”.
Em 2002, depois de três derrotas eleitorais, Lula venceu. Sua vitória simbolizou o triunfo da esperança sobre o ceticismo. O país, pela primeira vez, era presidido por um homem do povo, e o povo o reconhecia como seu.

O lulismo, como movimento, não é apenas o conjunto de políticas do Partido dos Trabalhadores. É o vínculo emocional entre Lula e as massas populares. O economista André Singer o definiu como “um pacto entre as classes trabalhadoras e o Estado”, baseado em inclusão social sem confronto.

A ideologia lulista
A ideologia do lulismo é populista de esquerda, mas temperada pelo pragmatismo de governo.
Combina elementos de social-democracia, desenvolvimentismo e consenso de mercado.
Seu eixo é a crença de que é possível incluir os pobres sem punir os ricos, conciliando redistribuição com estabilidade.

O lulismo nasce, portanto, de uma síntese:

Da esquerda sindical de base, herdada do PT dos anos 1980;

Do reformismo social-democrata europeu;

E do pragmatismo político típico das coalizões brasileiras.

A sustentação prática
O lulismo sustentou-se em quatro pilares fundamentais:

Programas de transferência de renda e inclusão social.
O Bolsa Família tornou-se símbolo do governo, alcançando milhões de famílias. Junto dele vieram o Prouni, o FIES, o Minha Casa, Minha Vida e a valorização do salário mínimo.
Pela primeira vez, milhões de brasileiros ingressaram na economia de consumo, compraram eletrodomésticos, viajaram de avião, frequentaram universidades.

Estabilidade macroeconômica e diálogo com o mercado.
Apesar da origem sindicalista, Lula manteve a política de metas de inflação, o superávit primário e a autonomia do Banco Central. O mercado, que temia o “radical”, descobriu um moderado hábil.
Lula transformou o medo em confiança e mostrou que o Estado podia ser eficiente sem ser autoritário.

Carisma pessoal e comunicação direta.
Nenhum assessor superava o poder da voz de Lula. Sua retórica combinava humor, simplicidade e emoção. Ele não falava para o povo, mas com o povo.
O lulismo é o retorno do carisma getulista em versão moderna: o presidente não é apenas um governante, é o intérprete sentimental da nação.

Coalizão ampla e pragmática.
Lula compreendeu o sistema político brasileiro como poucos. Para governar, formou uma base multipartidária que incluía desde partidos de esquerda até grupos conservadores do centro.
Essa estratégia deu governabilidade, mas também abriu espaço para o mensalão e outras crises éticas que mais tarde desgastariam sua imagem.

O pacto social e seus limites
Durante seus dois mandatos (2003–2010), o Brasil viveu uma década de crescimento e autoestima. O país se projetou no cenário internacional, reduziu a pobreza e ganhou prestígio.
No entanto, o lulismo tinha limites claros: não reformou o sistema político, nem alterou as estruturas de poder. A ascensão social ocorreu mais pelo consumo do que pela transformação da base produtiva.
A inclusão foi real, mas dependente do Estado e do líder — não das instituições.

Quando a economia desacelerou e as denúncias de corrupção se acumularam, o encanto começou a ruir. Dilma Rousseff, sua sucessora, tentou manter o pacto, mas sem o mesmo carisma. O impeachment de 2016 encerrou o ciclo de hegemonia lulista e abriu espaço para o ressentimento social e o surgimento de uma nova força: o bolsonarismo.

A herança simbólica
O lulismo deixará na história três marcas indeléveis:

A personalização da esperança: o presidente como milagreiro social.

A inclusão sem conflito: o consenso como método de poder.

O carisma como elo político: a emoção substituindo o ideário partidário.

Como Getúlio, Lula transformou sua biografia em ideologia e sua história pessoal em destino nacional. O lulismo é, assim, o getulismo da era democrática, com microfone e televisão.
Mas, como todo carisma excessivo, cria seu oposto. A ascensão de Lula despertou, nas classes médias e conservadoras, o medo do populismo e o desejo de um líder que o enfrentasse pela direita.
Esse líder surgiria em 2018, empunhando a bandeira da moral, da ordem e da antipolítica: Jair Bolsonaro.

Capítulo 4 – O Bolsonarismo: ressentimento, ordem e identidade

O bolsonarismo nasceu do vazio. Um vazio político, ético e simbólico.
Quando Lula deixou o poder, em 2010, o Brasil experimentava a exaustão de um ciclo: a promessa de inclusão havia se transformado em crise fiscal, escândalos de corrupção e desilusão moral.
A direita, fragmentada desde o regime militar, encontrou em Jair Messias Bolsonaro um nome improvável, mas eficaz — o anti-Lula, o anti-sistema, o anti-tudo.

Em 2018, depois de quase trinta anos de carreira discreta como deputado, Bolsonaro tornou-se presidente da República, conduzido por um turbilhão de ressentimentos e pela força invisível das redes sociais.
Nascia, assim, o bolsonarismo — um movimento que, mais do que ideologia, é emoção.

A gênese do mito
Bolsonaro apareceu como o “homem comum” indignado. Sua fala rude, seus gestos bruscos e sua retórica agressiva pareciam sinceridade num país saturado de discursos polidos e promessas vazias.
Ferido no corpo durante a campanha eleitoral, o então candidato transformou o atentado em símbolo de martírio.
A imagem do “mito” nasceu ali: o soldado ferido que sobrevivia para salvar a pátria.

Enquanto Lula simbolizava a esperança de ascensão, Bolsonaro encarnava o grito da revolta.
Seu público não era o pobre que buscava inclusão, mas a classe média ressentida, o trabalhador urbano, o pequeno empresário, o policial e o pastor.
Todos partilhavam a sensação de terem sido esquecidos por um sistema que beneficiava os “outros” — os políticos, os artistas, os intelectuais, os “vagabundos do Bolsa Família”.

O bolsonarismo deu a essa indignação uma voz e uma estética: a camisa da seleção, o hino nacional, a bandeira do Brasil, as orações públicas.
A política converteu-se em cruzada moral.

Ideologia e contradições
O bolsonarismo é uma amálgama de ideologias e instintos.
Mistura nacionalismo militar, neoliberalismo econômico, conservadorismo religioso e antipetismo visceral.
Seu discurso gira em torno de quatro eixos:

Moral e religião.
Defende valores tradicionais — família, pátria, Deus — e combate o que chama de “ideologia de gênero”, “marxismo cultural” e “doutrinação escolar”.
As igrejas evangélicas foram seu principal canal de legitimação moral e eleitoral.

Ordem e segurança.
Promoveu o armamento civil, exaltou as forças policiais e defendeu a pena dura contra criminosos.
O “cidadão de bem” tornou-se o protagonista da sua narrativa, enquanto o “bandido” e o “corrupto” viraram inimigos internos.

Antipolítica e antissistema.
Bolsonaro prometeu “mudar tudo isso que está aí”.
O Congresso, a imprensa e o Supremo Tribunal Federal foram tratados como adversários — e não como instituições democráticas.
A retórica do confronto substituiu o diálogo, e o populismo digital substituiu o debate parlamentar.

Economia liberal com retórica nacionalista.
Embora tenha entregado o comando da economia ao liberal Paulo Guedes, seu discurso permaneceu nacionalista, defendendo a soberania e o Brasil “acima de tudo”.
Essa contradição – entre o mercado e o Estado forte – nunca se resolveu.

O bolsonarismo como movimento social
Mais do que governo, o bolsonarismo é um movimento social de direita.
Opera por meio das redes digitais, com linguagem simplificada, memes, vídeos e palavras de ordem.
A comunicação é direta, emocional e permanente — um fluxo contínuo de estímulos entre o líder e seus seguidores.

O WhatsApp e o Telegram tornaram-se arenas políticas. A política virou guerra de narrativas.
Os comícios de rua deram lugar às transmissões ao vivo; os discursos, a postagens diárias.
O bolsonarismo criou uma religião cívica, em que Bolsonaro é o profeta, e o Brasil, o templo ameaçado.

Mesmo após o fim de seu mandato e o avanço de processos judiciais, o movimento sobreviveu.
O “mito” perdeu o poder formal, mas não o poder simbólico. Seu eleitorado mantém-se fiel, interpretando sua prisão como perseguição política.
O bolsonarismo, portanto, persiste sem Bolsonaro — fenômeno que o aproxima do getulismo pós-1954 e do lulismo pós-2018.

Ressentimento e identidade
Se o lulismo se alimentou da esperança, o bolsonarismo se nutre do ressentimento.
É a reação emocional de parcelas da sociedade que se sentem desrespeitadas pelo cosmopolitismo, pelo feminismo, pela esquerda, pela mídia e pelo “politicamente correto”.
Esse ressentimento é o cimento do movimento: dá identidade e propósito a quem se via esquecido.

Bolsonaro, como Vargas e Lula antes dele, oferece reconhecimento simbólico.
Mas o faz invertendo o discurso: em vez de prometer inclusão, promete exclusão dos “inimigos do bem”.
Onde o lulismo dizia “vocês também fazem parte do Brasil”, o bolsonarismo responde “o Brasil é nosso, não deles”.

A herança e o perigo
O bolsonarismo recolocou a direita na arena popular — algo que não ocorria desde os anos 1930.
Deu rosto às emoções conservadoras, voz às periferias religiosas e fúria às classes médias frustradas.
Mas, ao fazê-lo, tensionou a democracia.
Seu culto ao líder e seu desprezo pelas instituições repetem o padrão histórico do autoritarismo latino-americano: o povo como massa e o chefe como destino.

Assim como o getulismo fundou o Estado protetor e o lulismo o Estado inclusivo, o bolsonarismo ergueu o Estado moral — o Estado que julga, não apenas governa.
É o retorno do “pai severo”, aquele que pune os desviados e absolve os fiéis.

O ciclo populista reatualizado
O Brasil, ao longo de quase um século, oscilou entre três mitos:

o pai dos pobres (Vargas),

o companheiro do povo (Lula),

e o mito salvador (Bolsonaro).

Todos, de alguma forma, substituíram a política racional pelo encantamento emocional.
Todos mobilizaram o povo contra um inimigo imaginário.
E todos deixaram como herança uma democracia emocionalmente dependente do carisma.

O bolsonarismo, assim, não é anomalia — é continuidade.
É o espelho invertido do lulismo: onde um promete igualdade, o outro promete autoridade; onde um fala de amor, o outro fala de medo.
Ambos, porém, respondem à mesma carência: a ausência de instituições capazes de inspirar confiança.

Capítulo 5 – Lulismo e Bolsonarismo: Ideologias Práticas e Espelhos Opostos
A história política brasileira é, desde Getúlio Vargas, a história da substituição de instituições por líderes, e da razão por afetos. O Brasil, mais do que governado, tem sido seduzido. A cada geração, um novo intérprete das emoções nacionais ocupa o centro do palco — ora paternal, ora messiânico, ora justiceiro.
O lulismo e o bolsonarismo são os últimos capítulos dessa longa tradição de personalismo e populismo, dois polos que se combatem, mas também se refletem.

1. A estrutura comum: o líder como mito
Tanto Lula quanto Bolsonaro não se explicam apenas por seus partidos. Eles são marcas próprias, identidades políticas autônomas que transcendem siglas.
Ambos constroem uma narrativa de redenção:

Lula: o pobre que venceu o destino e levou o povo consigo;

Bolsonaro: o outsider que enfrentou o sistema para salvar a pátria.

Ambos se apresentam como mediadores diretos entre o povo e o poder.
Suas falas dispensam a intermediação dos partidos, dos intelectuais e até da imprensa.
O resultado é o mesmo: o carisma substitui o programa, e a fé, a razão.

2. O contraste ideológico: inclusão versus exclusão
Apesar de suas semelhanças estruturais, os dois movimentos expressam visões antagônicas de nação.

Dimensão    Lulismo    Bolsonarismo
Eixo moral    Solidariedade e ascensão social    Ordem e moral tradicional
Retórica    Esperança e conciliação    Indignação e confronto
Base social    Pobres urbanos, trabalhadores, beneficiários do Estado    Classe média conservadora, militares, evangélicos
Relação com o Estado    Estado inclusivo, protetor    Estado punitivo, moralizador
Visão do outro    O adversário é o parceiro em disputa democrática    O adversário é o inimigo da nação
O lulismo constrói o “nós” a partir da inclusão: “todos cabem no Brasil”.
O bolsonarismo constrói o “nós” a partir da exclusão: “o Brasil é só dos que pensam como nós”.
Um amplia o círculo; o outro o fecha.

3. Sustentação prática e simbólica
O lulismo sustenta-se em políticas sociais e na imagem do Estado como promotor da dignidade.
O bolsonarismo, em revanche, sustenta-se na rejeição ao Estado e na fé no líder moral.

O lulismo criou laços de dependência econômica (transferências de renda, programas sociais).
O bolsonarismo criou laços de pertencimento simbólico — uma comunidade moral e emocional que se reconhece nas redes, nos templos e nas ruas.

Ambos, contudo, dependem do mesmo cimento: o carisma presidencial.
Quando o líder vacila, o movimento enfraquece. Nenhum deles conseguiu institucionalizar-se plenamente.
O lulismo sobreviveu à prisão de Lula; o bolsonarismo resiste à prisão de Bolsonaro — mas ambos vivem como fé política, não como estrutura partidária sólida.

4. O Brasil entre dois espelhos
Os anos recentes mostram um país dividido entre duas metades emocionais:

uma que sonha com o retorno da inclusão social e da empatia,

outra que clama pela disciplina e pela moral restauradora.

O lulismo é o espelho do bolsonarismo, e vice-versa.
Um alimenta o outro: quanto mais Lula simboliza o Estado paternal, mais Bolsonaro se fortalece como reação; quanto mais Bolsonaro encarna o autoritarismo moral, mais Lula se renova como redentor dos oprimidos.
A polarização, longe de ser um acidente, tornou-se o motor emocional da democracia brasileira.

5. A democracia cativa do carisma
A alternância entre populismos revela uma fragilidade: a democracia brasileira ainda depende da emoção do povo, não da confiança nas instituições.
O país acredita em homens providenciais, não em políticas permanentes.
Essa cultura política — nascida com Vargas, revivida com Lula e radicalizada com Bolsonaro — mantém o Brasil em estado de encantamento e sobressalto.

Quando o carisma substitui a razão, a política se torna teatro.
E o Brasil, como palco, oscila entre aplausos e vaias, sem conseguir escrever um roteiro estável.

6. O futuro e a herança
O futuro da política brasileira dependerá de sua capacidade de escapar desse ciclo emocional.
Se o lulismo representa a nostalgia do Estado protetor e o bolsonarismo, a nostalgia da autoridade perdida, o desafio é criar uma nova forma de liderança — racional, plural e institucional.

A tarefa não é simples: requer educação cívica, maturidade política e coragem moral para dizer que nenhum salvador resolverá o que só instituições fortes podem resolver.

Conclusão
O lulismo e o bolsonarismo são, em última instância, duas faces do mesmo drama nacional: o de um povo que ama seus líderes mais do que suas leis.
Ambos nasceram do getulismo, ambos prometeram redenção, e ambos terminaram dividindo o país entre fiéis e infiéis.

Se Vargas foi o pai, Lula o filho e Bolsonaro o guerreiro, o Brasil talvez precise agora de algo mais maduro: um cidadão republicano que não adore nem odeie, mas compreenda.
Só então deixaremos de ser súditos de mitos para sermos autores de nossa própria história.

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