Patrícia Zanata*

A inteligência artificial está transformando o trabalho dos escritórios de advocacia que sabem utilizá-la. Uma das mudanças mais profundas está na própria definição de valor na advocacia.

Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Em 2026, 77% dos advogados brasileiros disseram usar frequentemente ferramentas de inteligência artificial, ante 55% no ano anterior. Além disso, 91% dos entrevistados perceberam melhora na qualidade técnica do trabalho final. Os dados são do Relatório sobre o Impacto da IA no Direito, divulgado pela OAB-SP em parceria com outras seccionais da Ordem e instituições participantes.

Essa transformação pode ser compreendida em três momentos. No passado, o escritório era predominantemente executor: recebia demandas e respondia a elas. Depois, passou a medir desempenho, produtividade, resultados e custos. O próximo estágio é usar dados, Business Intelligence (BI) e inteligência artificial para identificar padrões, projetar cenários e antecipar decisões.

O escritório deixa de apenas explicar ao cliente o que aconteceu e passa a ajudá-lo a compreender o que pode ocorrer. Surge, assim, o novo ABC da relação jurídica: AI, BI e CI — inteligência artificial, inteligência de negócios e inteligência competitiva. Em conjunto, essas dimensões podem transformar informações dispersas em conhecimento organizado para apoiar decisões.

A IA pode analisar milhares de processos, acompanhar mudanças jurisprudenciais, mapear riscos, avaliar probabilidades e cruzar informações para identificar padrões e anomalias. No Poder Judiciário, essa transformação já conta com diretrizes próprias: a Resolução CNJ nº 615/2025 estabelece parâmetros para o desenvolvimento, o uso e a governança de soluções de inteligência artificial nos tribunais. Entre os princípios e medidas previstos estão segurança, transparência, auditabilidade, prevenção de riscos e supervisão humana.

A mensagem é clara: a tecnologia não elimina a responsabilidade. Um dos riscos conhecidos da IA generativa é a chamada “alucinação”: a ferramenta pode apresentar como verdadeira uma informação inexistente, criar referências falsas ou atribuir a uma decisão judicial um entendimento que ela não adotou. A American Bar Association também alerta para esses riscos e para a necessidade de verificação humana.

O advogado não pode transferir para a máquina a responsabilidade assumida perante o cliente, o Judiciário e a sociedade. A adoção da IA exige políticas internas, treinamento, controle de acesso, proteção de dados, definição de responsabilidades e uma cultura de verificação. Informações confidenciais não devem ser inseridas indiscriminadamente em ferramentas cujas políticas de tratamento de dados sejam desconhecidas ou inadequadas.

A tecnologia pode transformar a pesquisa jurídica em ponto de partida para o raciocínio estratégico, mas não em seu substituto. Também pode modificar a economia dos escritórios: se uma tarefa que exigia cinco horas passa a demandar uma, o ganho está em direcionar o tempo economizado para atividades de maior valor. Para isso, estratégia, transformação de processos, treinamento e produtividade precisam caminhar juntas.

Também é preciso abandonar a falsa dicotomia entre “advogado ou IA”. O cenário mais provável não é o da substituição generalizada, mas o da diferenciação entre profissionais que souberem trabalhar com a tecnologia e aqueles que insistirem em trabalhar sem incorporá-la. A expansão dos agentes de IA reforça essa tendência e pode deslocar o trabalho humano de atividades repetitivas para tarefas que exigem interpretação, supervisão e decisão.

Julgamento, visão de negócio, negociação, relacionamento, adaptabilidade, inteligência emocional e criatividade continuarão sendo capacidades humanas fundamentais. Em situações complexas, o cliente não procura apenas uma resposta, mas alguém capaz de explicar que, embora tecnicamente possível, determinada solução talvez não seja a melhor decisão.

Essa pode ser a fronteira mais importante da nova advocacia. A máquina pode apontar probabilidades; o advogado precisa compreender consequências. A IA pode identificar padrões; o profissional precisa interpretar o contexto. O sistema pode sugerir caminhos; cabe ao advogado assumir a responsabilidade pela escolha.

Por isso, o escritório do futuro será menos uma estrutura organizada para produzir documentos e mais uma plataforma de inteligência jurídica, na qual dados, tecnologia e pessoas trabalham juntas para antecipar problemas, reduzir riscos e apoiar decisões.

O diferencial competitivo não estará simplesmente em ter acesso à IA — algo que poderá se tornar tão comum quanto ter um computador. Estará em saber o que perguntar, quais dados utilizar, como interpretar as respostas, quando desconfiar delas e, sobretudo, que decisão tomar a partir delas.

O escritório que compreender essa mudança poderá deixar de ser apenas executor e se tornar antecipador de cenários, oferecendo inteligência, estratégia e segurança na tomada de decisões. A grande transformação, porém, não será feita pela máquina: será conduzida pelo advogado que souber utilizá-la sem abrir mão de conhecimento jurídico, responsabilidade, discernimento e compromisso com a melhor decisão para o cliente.

* Patrícia Zanata é Head de Tecnologia do Reis Advogados.

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