Por Harley Ximenes — Advogado. Especialista em Direito do Trabalho, Empresarial e Sindical.
Estamos na reta final de mais um processo eleitoral para a Presidência da República. Um momento que deveria representar a celebração da democracia, da liberdade de escolha e da soberania popular transforma-se, lamentavelmente, em um ambiente de hostilidade, intolerância e radicalização. O debate político, que deveria ser construído sobre ideias, propostas e argumentos, frequentemente dá lugar a ataques pessoais, ofensas e constrangimentos. Parece que estamos perdendo a capacidade de compreender um princípio elementar da convivência democrática: ninguém é obrigado a pensar como nós!
A Constituição Federal de 1988 consagrou a liberdade de pensamento, de consciência e de manifestação, assegurando o pluralismo político como um dos fundamentos da República. O voto é direto, secreto e possui igual valor para todos. Entretanto, o que temos presenciado é uma crescente pressão social para que as pessoas revelem suas preferências eleitorais, como se estivessem obrigadas a prestar contas de suas convicções particulares. Ora, o direito ao voto compreende também o direito de não revelar em quem se pretende votar. O sigilo do voto não é uma concessão de terceiros, mas uma garantia constitucional!
Nesta semana, presenciei uma situação que me causou profunda tristeza. Dois amigos discutiam suas preferências políticas quando um deles, inconformado com a opinião do outro, resolveu chamá-lo de burro. Não apresentou argumentos capazes de justificar sua posição. Simplesmente desqualificou a inteligência daquele que pensava de maneira diferente. Mais grave que a ofensa foi a postura de superioridade moral e intelectual de quem parecia acreditar que somente ele possuía a verdade, a razão e o senso de justiça. Desde quando discordar de alguém passou a ser demonstração de ignorância? Ninguém possui o monopólio da verdade, muito menos o direito de transformar suas convicções políticas em parâmetro para julgar a inteligência ou o caráter de outra pessoa.
É preciso compreender que cada cidadão carrega consigo uma história. Somos resultado de nossas experiências familiares, profissionais, culturais, religiosas, econômicas e sociais. Nossas escolhas são influenciadas pelas oportunidades que tivemos, pelas dificuldades que enfrentamos, pelas injustiças que testemunhamos e pelas esperanças que cultivamos. Aquilo que representa uma prioridade para determinada pessoa pode não possuir o mesmo significado para outra. Portanto, reduzir a escolha eleitoral de alguém à ignorância ou à falta de caráter significa desconsiderar toda a complexidade da experiência humana.
A democracia não exige unanimidade. Pelo contrário, pressupõe divergências, interesses distintos e diferentes concepções de sociedade. É legítimo defender candidatos, criticar propostas e questionar programas de governo. O que não se pode admitir é transformar essas diferenças em perseguição, humilhação ou violência. Discordar é um direito. Ofender não é argumento. Intimidar não é convencer. Humilhar não é exercer cidadania. A liberdade de expressão não pode ser confundida com autorização irrestrita para violar a dignidade de quem pensa diferente.
Também precisamos refletir sobre a perigosa prática de rotular pessoas conforme suas escolhas eleitorais. Basta alguém manifestar determinada preferência para receber classificações depreciativas, ser excluído de círculos de amizade ou tornar-se alvo de constrangimentos familiares, profissionais e sociais. Em determinadas situações, até mesmo o silêncio passa a ser interpretado como suspeito. Existe uma contradição evidente quando alguém afirma defender a democracia, mas não tolera que outra pessoa exerça livremente seus direitos políticos. Defender a liberdade apenas para aqueles que concordam conosco não é defender a liberdade, mas os próprios interesses.
Precisamos recuperar a capacidade de conversar, ouvir e, sobretudo, respeitar. Uma amizade não deveria terminar por causa de uma eleição. Relações familiares não deveriam ser destruídas por preferências partidárias. O ambiente de trabalho não pode transformar-se em espaço de constrangimento ideológico. Nenhuma disputa eleitoral deveria justificar a perda do respeito entre pessoas que compartilham histórias, afetos e vínculos construídos ao longo de muitos anos. Governos passam, mandatos terminam, eleições se sucedem. Entretanto, as marcas deixadas pela intolerância podem permanecer por toda uma vida.
Ao final, independentemente de quem seja eleito presidente da República, precisamos compreender que a democracia não pertence a candidatos, partidos ou correntes ideológicas. Ela pertence ao povo brasileiro, em toda a sua diversidade. Que possamos votar com liberdade, preservar nossas convicções, respeitar o silêncio alheio e reconhecer a legitimidade da discordância. Não precisamos concordar para conviver, nem pensar da mesma maneira para nos respeitarmos. A inteligência não está em humilhar quem pensa diferente, mas em reconhecer que ninguém é dono absoluto da razão. Afinal, de que vale defender a democracia nas urnas e negá-la nas relações humanas.
