Na foto – Vinícius Soares, autor do artigo
Por Vinícius Soares* Ao longo de décadas, o mercado financeiro desenvolveu uma cultura de tomada de decisão baseada na mensuração de riscos. Indicadores como volatilidade, correlação, desvio padrão e índice de Sharpe ajudam a transformar cenários de incerteza em informações que podem ser comparadas e consideradas nas decisões. No ambiente corporativo, uma lógica semelhante começa a ganhar espaço na gestão de carteiras jurídicas, especialmente com o avanço da inteligência artificial e da capacidade de processar grandes volumes de dados.
Grandes empresas podem administrar milhares ou até dezenas de milhares de processos, com impactos relevantes sobre o caixa, as provisões e o planejamento financeiro. Ainda assim, parte importante da análise dessas carteiras é feita pela avaliação individual de processos ou de amostras limitadas. O desafio não está necessariamente na falta de conhecimento técnico, mas na dificuldade histórica de organizar e processar, em escala, informações jurídicas distribuídas entre documentos, decisões e históricos processuais.
A inteligência artificial começa a mudar esse cenário ao permitir que grandes conjuntos de informações sejam organizados e analisados com mais rapidez. Em vez de observar cada processo isoladamente, torna-se possível identificar padrões relacionados ao comportamento dos tribunais, à duração das ações, aos valores envolvidos, às teses discutidas e às possibilidades de desfecho. Com isso, amplia-se o universo de dados considerado na análise e criam-se condições para apoiar decisões sobre o contencioso em evidências mais abrangentes.
Dois conceitos próximos da lógica financeira são o forecast e o aging das carteiras jurídicas. O primeiro busca estimar como um conjunto de processos pode se comportar financeiramente ao longo do tempo, considerando possibilidades de desembolso e diferentes cenários. O segundo acompanha há quanto tempo as ações estão em andamento e como a idade dos processos pode influenciar as expectativas de desfecho, pagamento ou exposição. Em conjunto, esses indicadores ajudam a acompanhar a carteira jurídica também sob a perspectiva econômica.
Essa aproximação entre Direito e Finanças ganha relevância porque uma contingência judicial representa um fluxo financeiro incerto no futuro. Dois processos podem ter valores nominais semelhantes e, ainda assim, gerar impactos econômicos diferentes para uma empresa, conforme a probabilidade de perda, o momento esperado do desembolso e as características de cada caso. Considerar esses fatores e o valor presente dos fluxos oferece uma referência para avaliar a exposição jurídica de forma mais abrangente.
Para que esse tipo de análise seja possível, é preciso superar uma limitação histórica da gestão jurídica: o custo de processar informações não estruturadas. O Judiciário brasileiro também vem avançando na construção dessa infraestrutura. O DataJud, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), centraliza dados e metadados processuais enviados pelos tribunais. Sua API Pública permite consultar metadados de processos públicos, que podem servir a pesquisas, ao desenvolvimento de aplicações e à análise de tendências e padrões do sistema de Justiça.
Outro exemplo é a ferramenta Berna, desenvolvida para identificar processos semelhantes e auxiliar no enfrentamento da litigância predatória. Em março de 2026, o CNJ informou que a ferramenta havia analisado 30 milhões de processos ajuizados entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, em 88 tribunais. Desse total, 2,5 milhões foram identificados como possíveis demandas em massa ou abusivas. O caso ilustra como ferramentas de inteligência artificial podem ajudar a reconhecer padrões em grandes conjuntos de processos.
Isso não significa substituir a interpretação jurídica por modelos quantitativos. Assim como gestores financeiros continuam sendo necessários quando usam modelos para avaliar investimentos, advogados seguem responsáveis por interpretar o contexto, a estratégia, as particularidades processuais e os riscos que não cabem em um único indicador. Dados estruturados e análises em larga escala podem acrescentar evidências a decisões que continuam dependendo do julgamento profissional.
A tendência é que a aproximação entre dados, inteligência artificial e gestão de riscos transforme gradualmente a forma como departamentos jurídicos acompanham suas carteiras. Forecasts podem se tornar mais dinâmicos, análises de aging podem ser atualizadas continuamente e indicadores jurídicos podem dialogar de maneira mais direta com métricas financeiras e de risco.
O Direito corporativo sempre esteve relacionado à administração de incertezas. A diferença é que a tecnologia começa a permitir que parte delas seja mensurada em uma escala antes difícil de alcançar. Quando o risco passa a ser melhor medido, também muda a forma como as empresas podem decidir sobre ele.
Vinícius Soares é sócio e diretor de Produto da Turivius. Especialista em inteligência artificial, lidera o desenvolvimento da plataforma GPTuri. Foi cofundador da fintech Monetus, adquirida pelo Santander, integra a lista Forbes Under 30 e estudou Engenharia na Columbia University e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
