Estudo do BID aponta que servidores que utilizaram o Midas produziram, em média, dez expedientes a mais por dia

Uma ferramenta de inteligência artificial utilizada pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) aumentou em 37% a produtividade dos servidores que participaram de um estudo-piloto realizado na Secretaria Judiciária de 1º Grau (Sejud 1), em Fortaleza.

O resultado consta do estudo “IA e produtividade judicial: O impacto do Midas nos Tribunais de Fortaleza, Brasil”, publicado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O trabalho é assinado por Gastón Pierri, do BID; Marcelo Fontenele, secretário da Sejud 1 do TJCE; e José Luiz Nunes, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

A pesquisa avaliou o Mecanismo Identificador de Atos Similares (Midas), ferramenta que utiliza técnicas de processamento de linguagem natural e aprendizado de máquina para identificar e agrupar atos judiciais de acordo com a semelhança entre os textos.

Dez expedientes a mais por dia

Para medir o impacto da tecnologia, os pesquisadores compararam a produtividade de servidores que utilizaram o Midas com a de um grupo que executou as atividades sem o auxílio da ferramenta.

Os servidores que tiveram acesso ao sistema produziram aproximadamente dez expedientes a mais por dia. A diferença corresponde a um aumento de 37% em relação à média do grupo de controle.

Segundo o estudo, a diferença encontrada é estatisticamente significativa. Os pesquisadores também realizaram testes excluindo observações atípicas e servidores com produtividade excepcional, e os resultados permaneceram consistentes.

O trabalho, entretanto, apresenta os resultados como preliminares de um estudo-piloto. Isso significa que o percentual de 37% deve ser compreendido dentro das condições e do universo avaliados, e não como uma conclusão de que toda aplicação de inteligência artificial produzirá o mesmo ganho em qualquer unidade do Judiciário.

Como funciona o Midas

Na prática, o sistema identifica atos judiciais com características semelhantes e os organiza em grupos.

Com isso, atividades repetitivas podem ser processadas em blocos, reduzindo parte do trabalho manual de identificação e organização dos expedientes.

A tecnologia está sendo utilizada na Sejud 1, estrutura responsável por expedientes de 104 unidades judiciárias de Fortaleza.

O Midas não profere decisões judiciais. Seu papel, no contexto analisado pelo estudo, está relacionado à organização e ao processamento de atos similares, auxiliando o trabalho realizado pelos servidores.

Inteligência artificial no Judiciário

O Midas integra a estratégia de transformação digital do TJCE e está inserido nas iniciativas do Programa de Modernização do Poder Judiciário do Ceará (Promojud), desenvolvido com financiamento do BID.

O Tribunal vem adotando outras soluções de inteligência artificial e automação. Entre elas estão o Sistema de Análise e Resumo de Ações (Sara), destinado à produção de minutas de relatórios e resumos processuais, e outras ferramentas reunidas no Ambiente Unificado de Recursos de Inteligência Artificial (Auri).

Dados divulgados pelo TJCE mostram que, entre janeiro de 2020 e junho de 2026, o tempo médio entre o início de um processo e o primeiro julgamento caiu de 990 para 543 dias. No mesmo comparativo, o número de decisões no primeiro semestre passou de 274.647, em 2020, para 599.174 em 2026.

Esses indicadores dizem respeito ao conjunto das transformações promovidas pelo Tribunal e não podem ser atribuídos exclusivamente ao Midas.

Estudo abre discussão sobre uso responsável

O resultado chama atenção porque procura medir quantitativamente o efeito de uma ferramenta de IA sobre uma atividade concreta do Judiciário.

Ao mesmo tempo, a expansão desse tipo de tecnologia traz questões que devem acompanhar o debate: supervisão humana, proteção dos dados processuais, segurança das informações, transparência dos sistemas e mecanismos para identificação e correção de eventuais erros.

No caso do Midas, o estudo oferece uma evidência inicial de que a inteligência artificial aplicada a tarefas repetitivas pode aumentar a capacidade operacional. A questão seguinte será verificar se esses ganhos se mantêm com a ampliação do uso da ferramenta e, principalmente, em que medida a maior produtividade se converte em redução efetiva do tempo de tramitação dos processos.

Fontes: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE).

A matéria está deliberadamente mais cautelosa que o release institucional. O próprio BID classifica os achados como resultados preliminares de um estudo-piloto e informa que o ganho de 37% foi estatisticamente significativo e permaneceu robusto em testes que retiraram valores atípicos. (Publicações do BID)

Leia o estudo original do BID
Veja a divulgação oficial do TJCE

 

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