Por Redação DireitoCE | 29 de julho de 2026

Investigação do Gaeco/MPCE revelou rede estruturada de advogados que transmitiam ordens de chefes do PCC e Comando Vermelho presos na Unidade de Segurança Máxima para integrantes em liberdade. R$ 20 milhões foram bloqueados.

O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), deflagrou no último dia 30 de junho a Operação “Mensageiros do Crime”, que resultou na prisão de 11 advogados e na apreensão de bens de luxo, incluindo um veículo Range Rover blindado. Uma 12ª advogada, Cintia Emanuela Daniel Alves, segue foragida e tem domicílio na capital paulista.

A operação, que contou com o apoio da Polícia Civil do Ceará (PCCE) e da Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP), cumpriu 29 mandados de prisão e 29 de busca e apreensão nos municípios de Fortaleza, Aquiraz, Caucaia, Itaitinga, Maracanaú, São Gonçalo do Amarante e também em São Paulo. Além dos advogados, 17 chefes de facções criminosas foram alvos dos mandados — 15 deles já estavam presos na Unidade Prisional de Segurança Máxima do Ceará e outros dois foram detidos em liberdade.

📋 Lista dos advogados investigados

De acordo com o levantamento do g1 Ceará, os advogados alvos da operação são:

Nome Situação
Cintia Emanuela Daniel Alves Foragida (domicílio em São Paulo)
Raissa Xavier Leitão Presa
Agnelo Alexandre de Souza Amorim Preso
Francisco Jair Moreira Caetano Preso
Debora Marny de Aguiar Parente Presa
Francisca Leny Carneiro Presa
Aniele dos Santos Moreira Presa
Ana Flávia Martins Braga da Silva Presa
Carina Brauna Bruno Sales Presa
Maria Jakelyne Albuquerque Almeida Presa
Tancredo de Lima Araújo Preso
Rennier Martins Vasconcelos Preso

Dois dos advogados investigados concorreram a vagas de vereador nas eleições de 2024: Rennier Martins Vasconcelos (concorreu como “Dr. Rennier” pelo MDB em Fortaleza, obtendo 1.062 votos, ficando como suplente) e Debora Marny de Aguiar Parente (concorreu a uma vaga na Câmara Municipal de Fortaleza pelo Agir, com 27 votos).

🔍 Como funcionava o esquema

 

As investigações tiveram início a partir de decisão do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), em novembro de 2025, que autorizou a captação de imagens e áudios nos parlatórios da Unidade Prisional de Segurança Máxima do Ceará, em Caucaia (Grande Fortaleza).

As conversas registradas entre 8 de dezembro de 2025 e 15 de janeiro de 2026 revelaram um padrão reiterado de condutas criminosas entre os detentos e os advogados, que utilizavam linguagem codificada para tratar de assuntos ilícitos. Segundo o MPCE, os profissionais atuavam como “pombos-correio” ou “advogados de recado”, em conduta que extrapola significativamente os limites do legítimo exercício profissional da advocacia.

As mensagens transmitidas incluíam ordens e orientações para:

  • Reorganização das facções criminosas
  • Expansão territorial das organizações
  • Cooptação de novos integrantes
  • Aquisição de armas de fogo
  • Circulação de drogas e entorpecentes
  • Consolidação de alianças criminosas

O MPCE apurou ainda que os advogados investigados possuíam vínculos entre si, com constantes referências mútuas nas conversas interceptadas, indicando a existência de uma rede estruturada e não de atuações isoladas. O elevado número de visitas e atendimentos aos mesmos detentos era considerado incompatível com o padrão regular de assistência jurídica.

💰 Bloqueio de bens e apreensões

A Justiça determinou o bloqueio de R$ 20 milhões das contas dos investigados. Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidos:

  • Um veículo Range Rover blindado (apreendido com um dos chefes de facção)
  • Celulares, notebooks e joias dos demais alvos

⚖️ Posição da OAB-CE

A Ordem dos Advogados do Brasil – Secção Ceará (OAB-CE) informou que acompanha a operação e suspendeu cautelarmente os 12 advogados do exercício da função. Em nota, a Ordem afirmou que “acompanha o cumprimento da operação com o objetivo de assegurar a observância da legalidade dos atos praticados e a garantia das prerrogativas profissionais previstas no Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906/94)”.

A OAB-CE ressaltou ainda que, “confirmada a participação de advogados em condutas incompatíveis com a ética e a dignidade da advocacia, serão adotadas as medidas cabíveis no âmbito do Tribunal de Defesa das Prerrogativas (TDP)”. Os processos disciplinares tramitam sob sigilo.

🏛️ Próximos passos

Os advogados presos foram denunciados e se tornaram réus perante a Vara de Delitos de Organizações Criminosas. A operação “Mensageiros do Crime” representa um dos maiores golpes já desferidos contra a atuação de profissionais do Direito como intermediários do crime organizado no estado do Ceará.

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