Tecnologia acelera pesquisas, documentos e cálculos, mas estratégia, conferência das informações e responsabilidade permanecem com o profissional.
A inteligência artificial está modificando a organização do trabalho nos escritórios de advocacia. Ferramentas capazes de pesquisar informações, examinar documentos, estruturar petições e realizar cálculos já começam a assumir parte das tarefas repetitivas que antes consumiam horas das equipes jurídicas.
A tecnologia, entretanto, não substitui o conhecimento técnico, a experiência nem a responsabilidade profissional do advogado. Seu papel é auxiliar o trabalho, cabendo ao profissional avaliar os resultados, conferir as fontes e decidir como conduzir cada caso.
O Future of Professionals Report 2026, da Thomson Reuters, aponta que 74% dos profissionais consultados já utilizam ferramentas de inteligência artificial semanalmente. O levantamento mostra que a IA passou a integrar a rotina de diferentes atividades profissionais, embora os resultados dependam de estratégia, infraestrutura e uso responsável.
Na área jurídica, a discussão já não se limita à possibilidade de substituição de determinadas funções. O debate passa a identificar quais atividades podem ser automatizadas sem comprometer a qualidade, o sigilo, a segurança das informações e os direitos dos clientes.
Para Rafael Saccol Bagolin, fundador e CEO da legaltech Jusfy, a inteligência artificial deve ser empregada principalmente nas tarefas operacionais.
“A inteligência artificial consegue ganhar velocidade em tarefas que consomem muitas horas do advogado, mas a decisão sobre como conduzir um caso continua dependendo de conhecimento técnico, contexto e experiência”, afirma.
Segundo Bagolin, a finalidade deve ser retirar o profissional do trabalho mecânico, sem afastá-lo do processo de decisão.
1. Pesquisa jurídica
A pesquisa de jurisprudência é uma das atividades que podem ser aceleradas pela inteligência artificial. Em processos complexos, advogados precisam examinar grande quantidade de decisões para localizar precedentes relacionados ao caso.
A IA pode ajudar a selecionar julgados, identificar temas recorrentes e organizar os resultados. Isso permite que o advogado dedique mais tempo à leitura das decisões e à definição da estratégia processual.
A velocidade, porém, não elimina a necessidade de conferir cada referência nos canais oficiais dos tribunais. Modelos de linguagem podem inventar números de processos, atribuir decisões a ministros que não participaram do julgamento ou apresentar como precedente um caso que nunca existiu.
Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça identificou indícios de uso inadequado de IA na petição inicial do Habeas Corpus 1.094.270. Segundo o tribunal, os 16 julgados mencionados apresentavam erros na indicação do relator, do órgão julgador ou do tipo de decisão.
O relator, ministro Rogerio Schietti Cruz, determinou a comunicação do caso à Ordem dos Advogados do Brasil. A notícia oficial do STJ destaca que a utilização da tecnologia não afasta o dever de verificação humana.
Ferramentas conectadas a bases jurídicas podem reduzir o risco de informações fabricadas, mas não dispensam a consulta ao inteiro teor das decisões e aos sistemas oficiais dos tribunais.
2. Elaboração inicial de peças
Petições, contratos, pareceres, notificações e outros documentos podem ter uma primeira versão estruturada com o auxílio de IA.
A ferramenta pode organizar fatos, sugerir tópicos e adaptar uma minuta às informações fornecidas. O resultado deve ser tratado como ponto de partida, e não como documento pronto para protocolo ou assinatura.
Cabe ao advogado verificar se a narrativa corresponde aos documentos do processo, se a legislação mencionada está atualizada e se os pedidos são juridicamente adequados. Também é responsabilidade do profissional retirar trechos genéricos, corrigir contradições e adaptar o texto às particularidades do cliente.
Uma petição bem escrita na aparência pode conter erros graves de fundamentação. O advogado que assina o documento continua responsável pelo conteúdo apresentado ao Judiciário, mesmo quando o texto foi elaborado total ou parcialmente por uma ferramenta tecnológica.
3. Análise de documentos
Processos, contratos e procedimentos administrativos podem reunir centenas ou milhares de páginas. A inteligência artificial permite pesquisar termos, localizar cláusulas, organizar datas e identificar informações distribuídas em diferentes documentos.
A tecnologia também pode auxiliar na comparação entre versões de contratos e na identificação de divergências, obrigações, prazos ou possíveis inconsistências.
O ganho principal está na triagem do material. Em vez de substituir a interpretação jurídica, a IA ajuda o advogado a chegar mais rapidamente aos pontos que exigem análise.
Documentos protegidos por sigilo profissional, dados pessoais e informações empresariais não devem ser inseridos indiscriminadamente em plataformas abertas. Antes de utilizar qualquer sistema, o escritório precisa conhecer suas regras de privacidade, armazenamento e tratamento de dados.
4. Cálculos jurídicos
Atualização de valores, correção monetária, juros, indenizações, honorários, pensões e verbas trabalhistas são exemplos de cálculos que podem ser parcialmente automatizados.
Sistemas especializados conseguem aplicar índices e regras previamente definidos, diminuindo o tempo gasto com planilhas e operações repetitivas. A Jusfy, por exemplo, oferece a ferramenta JusCalc para a realização de cálculos relacionados a diferentes demandas jurídicas.
A automatização não garante, por si só, que o resultado esteja correto. O valor final depende dos dados informados, do índice selecionado, do período considerado e das regras aplicáveis ao caso.
“Quando uma tarefa é previsível e baseada em parâmetros objetivos, faz sentido deixar a máquina fazer o trabalho pesado e reservar ao advogado a conferência e a tomada de decisão”, diz Bagolin.
5. Análise de risco e crédito
A IA também pode apoiar a avaliação de dados financeiros e processuais, ajudando escritórios a projetar cenários e organizar informações relacionadas a recebimentos, honorários e riscos.
Essas ferramentas podem identificar padrões, produzir simulações e auxiliar na comparação entre diferentes hipóteses. O resultado serve como elemento de apoio, mas não representa uma previsão infalível sobre o desfecho de um processo ou a capacidade financeira de uma pessoa ou empresa.
Decisões que produzam efeitos sobre clientes ou terceiros exigem análise profissional. Os dados utilizados precisam ser confiáveis, atualizados e tratados de acordo com a legislação de proteção de dados.
Supervisão humana continua indispensável
As cinco aplicações revelam uma característica comum: a IA funciona melhor quando recebe tarefas delimitadas e permanece submetida à revisão humana.
Pesquisa, redação, triagem documental, cálculos e projeções podem ser acelerados. A definição da tese jurídica, o relacionamento com o cliente, a negociação, a avaliação ética e a responsabilidade pelo trabalho continuam pertencendo ao advogado.
O profissional também precisa compreender os limites da ferramenta utilizada. Não basta aceitar uma resposta porque ela foi apresentada de maneira organizada e convincente.
Na advocacia, uma informação incorreta pode prejudicar a defesa, provocar sanções processuais, comprometer o direito do cliente e atingir a reputação do escritório. A produtividade oferecida pela inteligência artificial somente se transforma em vantagem quando acompanhada de método, conferência e responsabilidade.
