Há pessoas que atravessam a vida deixando rastros. Outras, porém, iluminam caminhos. Minha mulher pertence a essa segunda espécie rara, dessas criaturas que Deus espalha pelo mundo como quem acende lampiões para as noites dos homens.

Hoje, 24 de maio de 2026, Maria Auxiliadora Cavalcante de Carvalho completa setenta e sete anos. E eu, que há cinquenta e seis anos caminho ao lado dela, sinto que, mais do que o aniversário de uma mulher, celebramos a permanência de uma graça.

Ela nasceu em Nova Russas, numa tarde em que os sinos e os cânticos da procissão de Nossa Senhora Auxiliadora passavam pelas ruas da cidade. Enquanto os fiéis entoavam louvores, sua mãe, dona Brígida, tomou a recém-nascida nos braços e, como se recebesse um sopro do céu, decidiu:

— Chamar-se-á Auxiliadora.

E assim começou sua história: primeiro Auxiliadora; depois Maria Auxiliadora Marques Cavalcante; mais tarde, Maria Auxiliadora Cavalcante de Carvalho. Mas os nomes verdadeiros que a vida lhe deu não caberiam jamais nos cartórios.

Foi Dorinha entre colegas e amigos de Crateús. Professora na pequena Poranga, onde, aos dezessete anos, já ensinava manhã, tarde e noite, enfrentando o frio da serra que lhe congelava os ossos, mas jamais a coragem. Tornou-se Cili nos corredores do Recife, entre livros, sonhos e inquietações estudantis. Depois, em Fortaleza, já universitária de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, continuou sendo essa mulher de voz firme, riso aberto e espírito inquieto.

Para mim, porém, ela sempre foi Cilizinha.

Conheci-a em 1968, naquele tempo em que os jovens acreditavam que podiam mudar o mundo apenas com palavras, coragem e esperança. E foi exatamente isso que ela fez comigo: mudou o meu mundo.

Ao encontrá-la, renasci.

O homem que eu era ficou para trás. Surgiu outro, mais sensível, mais humano, mais disposto a amar. Porque amar Maria Auxiliadora nunca foi um simples sentimento; foi aprendizado diário.

Ela possui a rara virtude das pessoas inteiras. É destemida sem perder a ternura. Firme sem abandonar a delicadeza. Inteligente sem precisar humilhar ninguém. Ao longo da vida foi filha amorosa, mãe admirável, avó encantada, esposa leal, amiga inesquecível.

Deu-me quatro filhos: Henrique Daniel, Leonardo Henrique, Carlos Henrique e Milena. Vieram depois os afetos que a vida multiplicou: Vannucy, Beatriz, Luca. E então chegaram as netas — Maria Clara, Isabela, Celina, Helena e Amelie — essas pequenas confirmações de que o amor, quando verdadeiro, aprende a florescer em gerações.

Muitos lhe deram nomes.

Virgílio Távora chamava-a Xuli.

Lúcio Brasileiro, com a irreverência dos íntimos, inventou Silowa.

Mas nenhum desses nomes consegue traduzir inteiramente o que ela é.

Porque algumas pessoas não pertencem apenas às palavras. Pertencem à memória afetiva daqueles que tiveram o privilégio de amá-las.

Hoje, olhando para trás, vejo que os anos não nos envelheceram: apenas nos aprofundaram. Continuamos caminhando juntos, talvez mais lentos, talvez mais silenciosos, mas infinitamente mais unidos.

E se me perguntassem o que aprendi em mais de meio século ao lado dela, eu responderia sem hesitar: aprendi que o amor verdadeiro não faz barulho. Ele permanece.

Permanece no cuidado discreto.

Na mão que procura a outra.

Na preocupação silenciosa.

Na companhia durante as doenças, as dificuldades e os medos.

No riso dividido à mesa.

Na construção paciente da família.

Na fidelidade dos dias comuns.

Hoje, neste domingo luminoso de maio, percebo que a aniversariante é ela, mas os presenteados somos todos nós.

Eu.

Nossos filhos.

Nossas netas.

Nossas noras.

Nosso genro.

Nossos amigos.

Porque viver ao lado de Maria Auxiliadora foi — e continua sendo — uma bênção cotidiana.

Obrigado, Maria.

Obrigado, Auxiliadora.

Obrigado, Dorinha.

Obrigado, Cili.

Obrigado, Cilizinha.

Obrigado, Xuli.

Obrigado, Silowa.

Obrigado pelo amor que nunca faltou.

Nós te amamos.

Feliz aniversário.

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