Na foto,  Danilo Limoeiro, CEO e cofundador da Turivius

Avanço da inteligência artificial muda tarefas, amplia a capacidade de análise e coloca estratégia, julgamento humano e relacionamento no centro da transformação do mercado jurídico

A inteligência artificial está transformando o mercado jurídico, mas seu principal impacto pode não estar na substituição dos profissionais por sistemas automatizados. A mudança tende a ocorrer, sobretudo, na maneira como advogados, escritórios e departamentos jurídicos trabalham, analisam informações e tomam decisões.

A avaliação é de Danilo Limoeiro*, CEO e cofundador da Turivius, que aponta experiências de outras transformações tecnológicas como referência para compreender o fenômeno.

Um exemplo citado por Limoeiro é a expansão dos caixas eletrônicos nos Estados Unidos entre as décadas de 1990 e 2010. Embora inicialmente se esperasse uma redução no número de funcionários bancários, o crescimento da rede de agências provocou, em um primeiro momento, aumento da demanda por esses profissionais. Ao mesmo tempo, porém, suas atribuições passaram por profunda transformação.

No Direito, movimento semelhante começa a ocorrer com ferramentas capazes de revisar contratos, produzir minutas, pesquisar jurisprudência e analisar grandes volumes de processos.

Essas tecnologias reduzem custos e o tempo necessário para a realização de tarefas tradicionalmente intensivas em trabalho humano. Paralelamente, permitem que departamentos jurídicos e escritórios avancem sobre atividades anteriormente limitadas por questões de tempo, escala ou custo, entre elas análises preditivas e projetos baseados em jurimetria.

IA amplia capacidade de análise

Segundo Danilo Limoeiro, o impacto da inteligência artificial vai além da automação das atividades repetitivas. Uma de suas principais contribuições está na capacidade de produzir informações que auxiliem decisões estratégicas.

Ao processar grandes volumes de decisões judiciais, contratos e outros documentos, as ferramentas podem identificar padrões, tendências e fatores de risco difíceis de serem percebidos exclusivamente por análises manuais.

Com isso, aumenta a capacidade de antecipar cenários, subsidiar estratégias jurídicas e apoiar decisões fundamentadas em evidências.

A tecnologia, entretanto, não elimina a participação humana nesse processo. Embora a IA consiga processar grandes quantidades de informações e identificar correlações em alta velocidade, permanece com os profissionais a responsabilidade de interpretar os resultados, compreender o contexto, avaliar os aspectos jurídicos envolvidos e conduzir as decisões.

Assim, a inteligência artificial amplia a capacidade analítica, enquanto julgamento, negociação e responsabilidade pelas estratégias permanecem atribuições essencialmente humanas.

A “cointeligência” entre humanos e máquinas

Esse modelo de colaboração é descrito pelo professor Ethan Mollick, da Wharton School, por meio do conceito de “cointeligência”, baseado em uma relação complementar entre seres humanos e inteligência artificial.

Nesse modelo, sistemas automatizados ficam responsáveis por atividades relacionadas ao processamento de dados e à identificação de padrões, enquanto os profissionais concentram esforços em funções que dependem de julgamento, negociação, interpretação de contexto, liderança e tomada de decisão.

A perspectiva, portanto, é de deslocamento das competências humanas para atividades de maior valor agregado, e não simplesmente de sua substituição pela tecnologia.

80% esperam forte impacto da IA

Dados citados por Danilo Limoeiro mostram que os próprios profissionais já reconhecem a dimensão dessa transformação.

De acordo com o Future of Professionals Report 2025, da Thomson Reuters, 80% acreditam que a inteligência artificial terá impacto alto ou transformacional em suas profissões nos próximos cinco anos.

O resultado indica que a discussão sobre a chegada da tecnologia passa a se concentrar na maneira como ela redefinirá competências, processos e formas de atuação profissional.

Outro levantamento citado pelo executivo reforça essa percepção. Segundo o Generative AI in Professional Services Report 2025, também da Thomson Reuters, apenas 10% dos profissionais de escritórios de advocacia consideram a IA generativa uma ameaça significativa à receita.

Em sentido contrário, metade dos entrevistados afirma estar entusiasmada ou esperançosa com o avanço da tecnologia, percebendo-a como instrumento capaz de complementar e potencializar o trabalho dos especialistas, em vez de simplesmente substituí-los.

Fluência digital ganha importância

Nesse novo ambiente, cresce a importância da chamada fluência digital.

A competência envolve compreender como funcionam as ferramentas de inteligência artificial, formular instruções eficazes, validar criticamente as respostas produzidas pelos sistemas e incorporar essas soluções aos fluxos de trabalho.

Ao mesmo tempo, competências diretamente relacionadas ao relacionamento humano tornam-se ainda mais relevantes.

Entre elas estão mediação de conflitos, construção de consenso, comunicação, liderança e condução de negociações complexas.

À medida que a inteligência artificial torna determinadas atividades técnicas mais acessíveis, o diferencial competitivo tende, segundo a análise, a se deslocar para capacidades essencialmente humanas.

Se elaboração de documentos, pesquisa jurisprudencial e parte da análise processual puderem ser realizadas com maior rapidez e qualidade por sistemas automatizados, profissionais e organizações passarão a gerar valor principalmente pela capacidade de transformar informações em estratégia, apoiar decisões empresariais e atuar preventivamente na gestão de riscos.

Papel da advocacia deve ser redefinido

Para Danilo Limoeiro, portanto, a principal transformação provocada pela inteligência artificial no Direito não está necessariamente na substituição da advocacia, mas na redefinição de seu papel.

Assim como ocorreu em outros setores atingidos por tecnologias disruptivas, a tendência apresentada pelo autor é de migração do foco da execução de tarefas repetitivas para atividades relacionadas à inteligência, análise e relacionamento.

Nesse cenário, a IA pode ampliar o potencial de atuação dos profissionais capazes de combinar tecnologia, dados e julgamento humano para desenvolver soluções mais estratégicas e alinhadas às necessidades das organizações.

* Danilo Limoeiro possui doutorado pelo MIT e mestrado pela Universidade de Oxford. É especialista em jurimetria, inteligência artificial aplicada ao Direito e análise de dados jurisprudenciais. É CEO e cofundador da Turivius, apresentada no texto original como uma das principais plataformas de inteligência jurídica do Brasil, com mais de 130 milhões de decisões judiciais analisadas.

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