Especialista alerta que a multiplicação de ferramentas de inteligência artificial pode reduzir a eficiência dos escritórios e aumentar riscos relacionados à segurança de dados e à qualidade das informações jurídicas.

A rápida expansão das ferramentas de inteligência artificial voltadas para o setor jurídico está criando um paradoxo dentro da advocacia: quanto mais soluções tecnológicas surgem no mercado, maior pode ser a dificuldade dos profissionais para manter eficiência, integração e segurança em suas rotinas de trabalho.

A avaliação é do advogado e empreendedor Rafael Grimaldi, cofundador da legaltech Inspira, que observa uma mudança significativa no principal desafio enfrentado pelos escritórios de advocacia. Se antes o problema era a ausência de tecnologia capaz de automatizar tarefas repetitivas, agora o obstáculo passou a ser o excesso de plataformas que não se comunicam entre si.

Segundo ele, a fragmentação tecnológica transformou-se em um novo custo operacional para escritórios e departamentos jurídicos.

“Hoje, muitas bancas utilizam uma ferramenta para pesquisa de jurisprudência, outra para análise documental, uma inteligência artificial genérica para consultas rápidas e ainda mantêm seus arquivos dispersos em diferentes sistemas. O advogado acaba dedicando tempo valioso para integrar informações que deveriam estar conectadas”, afirma.

Fragmentação reduz produtividade

A proliferação de soluções especializadas trouxe ganhos importantes de produtividade, mas também aumentou a complexidade da gestão tecnológica dentro dos escritórios.

Na prática, advogados passaram a atuar como gestores de múltiplas plataformas, dedicando parte significativa do tempo à transferência e organização de informações entre sistemas distintos.

Estudo do Thomson Reuters Institute apontou que profissionais do Direito perdem, em média, 240 horas por ano com atividades repetitivas passíveis de automação. Para Grimaldi, parte desse desperdício já não está necessariamente ligada à execução das tarefas, mas ao atrito gerado pela utilização simultânea de diferentes ferramentas.

Segurança preocupa especialistas

Outro ponto de atenção envolve o uso crescente de inteligências artificiais generalistas, desenvolvidas para o público em geral e não especificamente para a área jurídica.

Segundo especialistas, o emprego dessas plataformas para análise de contratos, elaboração de peças processuais ou estratégias de litígio pode representar riscos relevantes relacionados à confidencialidade das informações e à proteção de dados sensíveis.

O tema ganha importância diante das exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e dos deveres éticos de sigilo profissional inerentes à advocacia.

Pesquisa Future Ready Lawyer 2024 revelou que 73% dos líderes jurídicos apontam o aumento do volume e da complexidade dos dados como um dos principais desafios do setor.

Nesse cenário, cresce a preocupação com a utilização de sistemas que não possuem treinamento específico em conteúdo jurídico nem mecanismos robustos de auditoria e validação das respostas fornecidas.

Casos concretos acendem alerta

Os riscos não são apenas teóricos. Um dos episódios mais citados no setor ocorreu nos Estados Unidos, no caso conhecido como Mata versus Avianca, em 2023.

Na ocasião, uma peça processual foi apresentada à Justiça contendo referências a decisões judiciais inexistentes, geradas por uma ferramenta de inteligência artificial generalista. O episódio repercutiu internacionalmente e tornou-se exemplo dos perigos associados à utilização inadequada dessas tecnologias em atividades jurídicas.

Próxima etapa: integração e governança

Para Rafael Grimaldi, a discussão sobre a adoção de tecnologia na advocacia já superou a fase de convencimento do mercado.

O foco agora, segundo ele, deve estar na construção de ambientes tecnológicos capazes de oferecer três elementos essenciais: qualidade verificável das informações, governança adequada dos dados e integração eficiente dos fluxos de trabalho.

A tendência é que escritórios e departamentos jurídicos passem a buscar soluções que concentrem múltiplas funções em plataformas integradas, reduzindo a necessidade de alternar entre diversos sistemas ao longo do dia.

“A tecnologia deixou de ser uma questão de preferência e passou a ser um fator de competitividade. O desafio agora não é simplesmente utilizar inteligência artificial, mas utilizá-la de forma segura, integrada e estratégica”, conclui.

Para especialistas, o mercado jurídico vive uma nova etapa de transformação digital, na qual a capacidade de combinar inovação, produtividade e segurança poderá definir quais organizações estarão mais preparadas para os desafios dos próximos anos.

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