Especialista afirma que o trabalho silencioso da investigação criminal, aliado à inteligência policial e à tecnologia, é decisivo para desarticular organizações criminosas e reduzir a impunidade.
Enquanto o policiamento ostensivo atua na prevenção imediata dos crimes, a investigação criminal permanece como um dos principais instrumentos do Estado para combater a criminalidade organizada, identificar autores, reunir provas e reduzir a impunidade. A avaliação é do delegado de Polícia André Santos Pereira, especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública, que defende o fortalecimento das estruturas de investigação como estratégia essencial para ampliar a eficiência da persecução penal.
Segundo o especialista, grande parte da população associa a segurança pública à presença de policiais nas ruas e ao patrulhamento ostensivo. No entanto, o trabalho decisivo para desarticular organizações criminosas acontece longe dos holofotes, envolvendo delegados, investigadores, escrivães, agentes, peritos e equipes de inteligência responsáveis pela produção de provas e pela identificação das estruturas criminosas.
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública citados pelo especialista apontam redução de 16,2% nos homicídios dolosos no triênio 2023/2025 em comparação com o período de 2019/2022. Foram registrados 34.758 homicídios, contra 41.485 no triênio anterior. Entre os fatores apontados para esse resultado estão o fortalecimento das ações de inteligência, da investigação criminal e o aumento da eficiência da persecução penal.
Para André Santos Pereira, o policiamento ostensivo é indispensável, mas possui objetivos diferentes daqueles desempenhados pela investigação criminal.
“O policiamento nas ruas oferece resposta imediata e inibe o crime de oportunidade. Já a investigação busca identificar quem planejou, financiou e organizou a prática criminosa, atingindo a estrutura das organizações e impedindo novos delitos”, afirma.
Na avaliação do delegado, a investigação criminal representa o “cérebro” do sistema de segurança pública. Segundo ele, as grandes operações policiais são resultado de meses — e, em alguns casos, anos — de trabalho técnico, envolvendo cruzamento de informações, análise de dados, monitoramento, inteligência policial e coleta de provas capazes de sustentar responsabilizações perante a Justiça.
Tecnologia amplia desafios
O especialista observa que a evolução tecnológica também elevou o grau de sofisticação das organizações criminosas, que passaram a utilizar sistemas de criptografia, comunicação segura e mecanismos complexos de lavagem de dinheiro.
Nesse cenário, ele defende investimentos permanentes em inteligência policial, softwares especializados, laboratórios periciais e ferramentas de análise de vínculos, além da integração entre as forças de segurança.
Segundo André Pereira, tecnologia, entretanto, não substitui a atuação humana.
“Os equipamentos são ferramentas. O resultado depende da qualificação e da valorização dos profissionais responsáveis pela investigação, que atuam diariamente na produção de provas e no enfrentamento ao crime organizado”, ressalta.
Integração e modernização
O delegado também defende mudanças estruturais para fortalecer a chamada “segurança pública invisível”. Entre as prioridades estão a ampliação dos investimentos nas polícias judiciárias, a integração entre polícias estaduais, Polícia Federal e órgãos de inteligência financeira, como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), permitindo o compartilhamento ágil de informações.
Outra medida considerada essencial é a modernização da legislação processual penal, com a simplificação de procedimentos investigativos e maior adequação às provas digitais e cibernéticas.
Na avaliação do especialista, fortalecer a investigação criminal significa aumentar a capacidade do Estado de combater organizações criminosas, reduzir a impunidade e oferecer respostas mais eficazes à sociedade, por meio de ações baseadas em inteligência, planejamento, tecnologia e produção consistente de provas.
