Jurista, professor e escritor cearense revela por que dedicou anos ao estudo das inscrições tumulares e afirma que seu novo livro é, acima de tudo, uma profunda celebração da vida, da memória e da condição humana.

Por Sabino Henrique

Há temas que a sociedade evita. A morte talvez seja o maior deles. Enquanto o mundo se ocupa em prolongar a vida, esconder o envelhecimento e silenciar a finitude, o professor, jurista, escritor e defensor dos direitos humanos César Barros Leal escolheu justamente seguir o caminho oposto.

Há décadas ele visita cemitérios no Brasil e no exterior, pesquisa inscrições tumulares, recolhe epitáfios, investiga histórias de personagens esquecidos e transforma essas descobertas em reflexões sobre memória, cultura, filosofia e existência.

O resultado é um livro monumental — já com mais de 330 páginas de texto e cerca de 50 páginas de fotografias, ainda em construção — que nasceu do reencontro com antigos artigos publicados na década de 1970 e amadureceu ao longo dos anos.

Nesta entrevista ao direitoce.com.br,  César Barros Leal explica como uma pesquisa aparentemente voltada para a morte acabou se transformando numa verdadeira celebração da vida.

DireitoCE — O que levou um jurista e defensor dos direitos humanos a dedicar tantos anos ao estudo das inscrições tumulares?

César Barros Leal — O livro nasceu do reencontro com uma antiga ideia. Ao reler textos que escrevi ainda jovem, publicados na imprensa cearense nos anos 1970, reencontrei artigos sobre epitáfios e percebi que aquele interesse nunca havia desaparecido. Resolvi resgatá-los, ampliá-los e lhes dar nova dimensão. Na verdade, sempre fui fascinado pelos cemitérios como espaços de memória. Eles preservam histórias, sentimentos, valores, dores e esperanças que atravessam gerações.

DireitoCE — Muitos leitores podem estranhar o fato de alguém dedicar tantos anos ao estudo da morte. O senhor enxerga esse tema de outra forma?

César Barros Leal — Sem dúvida. O livro não é sobre a morte como fim, mas sobre a vida refletida na memória dos que partiram. As inscrições tumulares são pequenos monumentos literários e afetivos. Elas revelam o amor, a saudade, a fé, o humor, o sofrimento e a grandeza humana. Cada epitáfio é uma narrativa condensada. Ao estudá-los, compreendemos melhor quem fomos e quem somos.

DireitoCE — Em sua pesquisa aparecem nomes como Edgar Allan Poe, Baudelaire, William Faulkner, Paul Veyne, Rubem Alves e Freud. Como esses autores dialogam com sua obra?

César Barros Leal — Todos eles, de alguma forma, enfrentaram a questão da finitude. Paul Veyne mostra que já entre os romanos havia interesse pelas inscrições funerárias. Poe, Baudelaire e Faulkner percorriam cemitérios em busca de inspiração. Rubem Alves escreveu algo extraordinário ao afirmar que quem não fala da morte acaba esquecendo da vida. Freud, por sua vez, via a existência humana oscilando entre Eros e Tânatos. Todos esses pensamentos ajudam a compreender que refletir sobre a morte é, paradoxalmente, uma forma de compreender melhor a vida.

DireitoCE — O senhor afirma que escrever é um permanente exercício de maturação das ideias. Esse livro também amadureceu o próprio autor?

César Barros Leal — Creio que sim. Talvez essa tenha sido sua maior contribuição para mim. Ao longo da escrita fui deixando para trás antigos receios. A convivência intelectual com o tema acabou produzindo uma espécie de serenidade interior. Aos poucos compreendi que aceitar a finitude não significa resignação, mas reconciliação com a condição humana.

DireitoCE — O senhor acredita que nossa sociedade evita falar sobre a morte?

César Barros Leal — Evidentemente. Preferimos afastar esse assunto do cotidiano. Bernard Schumacher observa que evitamos pensar na morte como quem evita uma praga. Ela nos inquieta porque nos lembra da nossa própria fragilidade. Entretanto, esconder a morte não elimina sua realidade. Apenas nos impede de compreender plenamente a vida.

DireitoCE — Em determinado momento o senhor afirma que espera libertar também os leitores desse temor. Esse talvez seja o verdadeiro objetivo do livro?

César Barros Leal — Gostaria muito que fosse. Se a escrita conseguiu diminuir meu próprio medo, talvez possa oferecer semelhante conforto a outras pessoas. Não pretendo ensinar respostas definitivas. Quero apenas convidar o leitor a caminhar comigo, página após página, refletindo sobre aquilo que normalmente evitamos enfrentar.

DireitoCE — O senhor percorreu inúmeros cemitérios. O que mais o impressiona nesses lugares?

César Barros Leal — A extraordinária diversidade humana. Há inscrições de enorme beleza literária; outras são simples e profundamente emocionantes. Algumas revelam resignação, outras revolta, outras humor. Os cemitérios são grandes arquivos da memória coletiva. Ali repousam não apenas pessoas, mas histórias, culturas, afetos e modos de compreender a existência.

DireitoCE — Em uma época dominada pela velocidade das redes sociais, um livro de mais de 330 páginas pode parecer um desafio editorial. Isso o preocupa?

César Barros Leal — Não escrevo pensando na pressa do nosso tempo. Escrevo porque o tema exige profundidade. O livro cresce diariamente porque cada nova pesquisa abre outras possibilidades. Ainda estou longe de concluí-lo. Não por gosto da prolixidade, mas porque o assunto possui uma riqueza praticamente inesgotável.

DireitoCE — Depois de tantos anos convivendo intelectualmente com a morte, sua visão sobre ela mudou?

César Barros Leal — Mudou profundamente. Hoje penso que o medo da morte é mais intenso na juventude, quando imaginamos possuir um tempo infinito pela frente. A experiência da vida, especialmente depois de enfrentar perdas familiares dolorosas, altera essa percepção. A vida, às vezes, pode assustar mais do que a própria morte. Passei a vê-la como um repouso sereno, ainda que permaneça um grande mistério. Não sei o que existe depois dela. Mas acredito que exista outra dimensão da existência. O desconhecido naturalmente nos inquieta, mas já não me paralisa.

DireitoCE — Que mensagem o senhor gostaria que permanecesse no coração do leitor ao fechar esse livro?

César Barros Leal — Que a consciência da finitude nos torna mais humanos. Quando aceitamos que a vida é limitada, passamos a valorizar melhor o tempo, os afetos, a memória e as pessoas. No fundo, meu livro fala menos da morte do que da extraordinária beleza de estar vivo.

Uma viagem pelos caminhos da memória

Mais do que um estudo sobre epitáfios ou uma investigação histórica sobre cemitérios, o novo livro de César Barros Leal apresenta-se como uma reflexão filosófica sobre a condição humana. Em tempos que celebram a velocidade, a superficialidade e o esquecimento, o jurista cearense propõe um raro exercício de contemplação: ler as palavras deixadas sobre os túmulos para compreender melhor o valor da existência.

Ao transformar inscrições funerárias em matéria literária, histórica e humana, César Barros Leal demonstra que, talvez, a melhor forma de vencer o medo da morte seja aprender, finalmente, a viver.

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