Danilo Limoeiro, CEO e cofundador da Turivius, analisa como a inteligência artificial está transformando o trabalho jurídico e afirma que tecnologia, dados e julgamento humano deverão caminhar juntos
A inteligência artificial vai substituir advogados ou transformar a maneira como eles trabalham? Para Danilo Limoeiro, CEO e cofundador da Turivius, a segunda hipótese traduz melhor o movimento em curso no mercado jurídico.
Doutor pelo MIT e mestre pela Universidade de Oxford, Limoeiro é especialista em jurimetria, inteligência artificial aplicada ao Direito e análise de dados jurisprudenciais. À frente da Turivius, plataforma de inteligência jurídica que já analisou mais de 130 milhões de decisões judiciais, ele acompanha diretamente a incorporação dessas tecnologias à atividade jurídica.
Nesta entrevista, adaptada de artigo de sua autoria, Limoeiro aborda os efeitos da automação, a importância da fluência digital, o avanço da jurimetria e as competências humanas que tendem a ganhar ainda mais valor.
DireitoCE — A inteligência artificial poderá substituir profissionais do Direito?
Danilo Limoeiro — A chegada da inteligência artificial ao mercado jurídico tem alimentado previsões nesse sentido, mas a história de outras transformações tecnológicas sugere efeitos mais complexos do que a simples eliminação de funções.
Um exemplo é a expansão dos caixas eletrônicos nos Estados Unidos entre as décadas de 1990 e 2010. Embora inicialmente se esperasse uma redução do número de funcionários bancários, o crescimento da rede de agências levou, num primeiro momento, ao aumento da demanda por esses profissionais. O que ocorreu, ao mesmo tempo, foi uma profunda transformação de suas atribuições.
DireitoCE — Algo semelhante pode acontecer com a advocacia?
Danilo Limoeiro — No setor jurídico, ferramentas de IA já são capazes de revisar contratos, produzir minutas, pesquisar jurisprudência e analisar grandes volumes de processos. Isso reduz o custo e o tempo de execução de tarefas tradicionalmente intensivas em trabalho humano.
Por outro lado, essas ferramentas ampliam a capacidade dos departamentos jurídicos e escritórios de atuar em frentes que antes eram inviáveis por limitações de tempo, escala ou custo, incluindo análises preditivas e projetos baseados em jurimetria.
DireitoCE — Então o principal impacto da IA não está simplesmente na automação?
Danilo Limoeiro — Não. Um dos principais impactos está na geração de informações capazes de orientar decisões estratégicas. Ao processar grandes volumes de decisões judiciais, contratos e documentos, essas ferramentas podem identificar padrões, tendências e fatores de risco que dificilmente seriam percebidos em análises exclusivamente manuais.
Isso amplia a capacidade de antecipar cenários, subsidiar estratégias jurídicas e apoiar decisões baseadas em evidências.
DireitoCE — Se a máquina consegue processar tantas informações, qual passa a ser o papel do profissional?
Danilo Limoeiro — A tecnologia consegue processar grandes volumes de informações e identificar correlações em alta velocidade, mas cabe aos profissionais interpretar os resultados, avaliar seu contexto, ponderar os aspectos jurídicos e conduzir as decisões.
A IA amplia a capacidade analítica. O julgamento, a negociação e a responsabilidade pelas estratégias, entretanto, permanecem atribuições essencialmente humanas.
DireitoCE — Essa relação entre profissional e tecnologia já tem uma definição?
Danilo Limoeiro — O professor Ethan Mollick, da Wharton School, utiliza o conceito de “cointeligência” para descrever uma relação complementar entre seres humanos e inteligência artificial.
Nesse modelo, sistemas automatizados assumem atividades relacionadas ao processamento de dados e à identificação de padrões, enquanto os profissionais concentram seus esforços em funções que dependem de julgamento, negociação, interpretação de contexto, liderança e tomada de decisão.
Em vez de simplesmente substituir competências humanas, a IA tende a deslocar seu foco para atividades de maior valor agregado.
DireitoCE — Os profissionais já percebem essa transformação?
Danilo Limoeiro — De acordo com o Future of Professionals Report 2025, da Thomson Reuters, 80% acreditam que a inteligência artificial terá impacto alto ou transformacional em suas profissões nos próximos cinco anos.
Isso indica que a discussão passa a se concentrar também na maneira como a tecnologia redefinirá competências, processos e formas de atuação.
DireitoCE — E os escritórios enxergam a IA como ameaça aos seus negócios?
Danilo Limoeiro — Segundo o Generative AI in Professional Services Report 2025, também da Thomson Reuters, apenas 10% dos profissionais de escritórios de advocacia enxergam a IA generativa como uma ameaça significativa à receita.
Em contrapartida, metade dos entrevistados afirma estar entusiasmada ou esperançosa com o avanço da tecnologia, considerando-a uma ferramenta capaz de complementar e potencializar a atuação dos especialistas, e não simplesmente substituí-los.
DireitoCE — Que novas competências serão exigidas dos advogados?
Danilo Limoeiro — De um lado, cresce a importância da chamada fluência digital. Isso envolve compreender o funcionamento das ferramentas de IA, formular instruções eficazes, validar criticamente as respostas geradas e integrar essas soluções aos fluxos de trabalho.
De outro, tornam-se ainda mais relevantes competências relacionadas ao relacionamento humano, como mediação de conflitos, construção de consenso, comunicação, liderança e condução de negociações complexas.
DireitoCE — O que poderá diferenciar um advogado em um mercado no qual todos tenham acesso à inteligência artificial?
Danilo Limoeiro — À medida que as ferramentas tornam atividades técnicas mais acessíveis, o diferencial competitivo tende a migrar para aquilo que permanece essencialmente humano.
Se a elaboração de documentos, a pesquisa jurisprudencial e parte da análise processual passam a ser executadas com maior rapidez e qualidade por sistemas automatizados, profissionais e organizações passam a gerar valor principalmente pela capacidade de transformar essas informações em estratégia, apoiar decisões empresariais e atuar preventivamente na gestão de riscos.
DireitoCE — Afinal, qual será a principal transformação provocada pela IA no Direito?
Danilo Limoeiro — A principal transformação não parece estar relacionada à substituição da advocacia, mas à redefinição de seu papel.
Assim como ocorreu em outros setores impactados por tecnologias disruptivas, o foco tende a migrar da execução de tarefas repetitivas para atividades de inteligência, análise e relacionamento.
Mais do que reduzir a importância do profissional jurídico, a IA amplia o potencial de atuação daqueles capazes de combinar tecnologia, dados e julgamento humano para produzir soluções mais estratégicas e alinhadas às necessidades das organizações.
PERFIL
Danilo Limoeiro possui doutorado pelo MIT e mestrado pela Universidade de Oxford. É especialista em jurimetria, inteligência artificial aplicada ao Direito e análise de dados jurisprudenciais. É CEO e cofundador da Turivius, plataforma de inteligência jurídica do Brasil que, segundo o texto fornecido, conta com mais de 130 milhões de decisões judiciais analisadas.
