Toda sociedade mede sua civilização pela forma como protege a vida. Não apenas pela quantidade de leis que produz, pelo tamanho de seus tribunais ou pelo número de policiais que coloca nas ruas, mas pela capacidade de responder, com eficiência e serenidade, à pergunta que toda família faz diante de um crime: quem foi o responsável?
Quando essa resposta não chega, instala-se algo mais grave do que a dor da perda. Instala-se a sensação de abandono.
O debate sobre segurança pública no Brasil costuma ser dominado pelas urgências. Discute-se o reforço do policiamento, a aquisição de viaturas, o endurecimento das penas, a construção de presídios e as operações de grande repercussão. Tudo isso tem seu lugar. Mas há uma etapa menos visível — e infinitamente mais decisiva — que raramente ocupa o centro das discussões: a investigação criminal.
É ela que separa a suspeita da prova, a narrativa da verdade, a indignação da Justiça.
Não existe processo penal consistente sem investigação. Não existe condenação legítima sem produção de provas. Tampouco existe Estado de Direito quando o crime permanece sem autoria conhecida.
Os números recentemente divulgados sobre o baixo índice de esclarecimento de homicídios no país não representam apenas uma deficiência administrativa. Revelam uma crise institucional. Cada assassinato que permanece sem solução é uma mensagem silenciosa de que o Estado falhou justamente onde sua presença é mais indispensável: na proteção da vida e na aplicação da lei.
É um equívoco imaginar que a impunidade começa quando um criminoso escapa da prisão. Ela começa muito antes, quando o crime deixa de ser esclarecido.
Nesse instante, rompe-se um elo essencial da cadeia da Justiça. A investigação deficiente compromete o trabalho do Ministério Público, dificulta a atuação do Judiciário e priva a sociedade da resposta que legitimamente espera de suas instituições.
Há uma tendência recorrente de avaliar a eficiência da segurança pública pelo que é imediatamente visível. Contam-se prisões, apreensões de armas, toneladas de drogas, operações realizadas. São indicadores relevantes, mas insuficientes. O verdadeiro termômetro da eficácia institucional talvez seja outro: quantos homicídios foram efetivamente esclarecidos? Quantas famílias conheceram a verdade? Quantos autores responderam por seus atos perante a Justiça?
Essa deveria ser uma estatística acompanhada com o mesmo rigor com que se acompanham os indicadores econômicos ou fiscais. Afinal, nenhuma política pública é mais elementar do que garantir ao cidadão que a violência não ficará sem resposta.
Investigar exige inteligência, método, tecnologia, integração entre instituições, perícia qualificada e profissionais permanentemente capacitados. Não produz imagens espetaculares nem manchetes diárias. É um trabalho paciente, muitas vezes invisível aos olhos da população. Mas é justamente essa discrição que lhe confere importância estratégica. A investigação é a engenharia silenciosa da Justiça.
No Ceará, como em todo o Brasil, o desafio transcende governos e calendários eleitorais. Trata-se de uma política de Estado. Valorizar as polícias judiciárias, fortalecer a polícia científica, investir em inteligência e estabelecer metas transparentes de esclarecimento de crimes não é uma agenda corporativa. É uma exigência da cidadania.
Quando o Estado identifica o autor de um homicídio, produz provas consistentes e assegura um julgamento justo, não está apenas responsabilizando um indivíduo. Está reafirmando um princípio civilizatório: o de que nenhuma vida é descartável e nenhum crime pode ser tratado como um episódio destinado ao esquecimento.
A Justiça não nasce na sentença. Ela começa muito antes, no primeiro vestígio preservado, na primeira prova produzida, na persistência de quem investiga sem alarde, mas com compromisso.
Porque o que ameaça uma democracia não é apenas a criminalidade.
É a normalização da impunidade.
E uma sociedade que se acostuma a conviver com crimes sem resposta corre o risco de perder, pouco a pouco, a confiança não apenas em suas instituições, mas na própria ideia de Justiça.
