Por Sabino Henrique –
Em toda campanha eleitoral existe uma distância inevitável entre o discurso e a realidade. Em 2026, no Ceará, essa distância parece ocupar posição central na pré-candidatura de Ciro Gomes ao Governo do Estado. Sua reconhecida capacidade de formular diagnósticos continua praticamente incontestável. Poucos políticos brasileiros demonstram semelhante domínio de indicadores econômicos, finanças públicas e problemas estruturais da administração.
O verdadeiro debate, porém, não está no diagnóstico. Está na execução. O Ceará de hoje não é o mesmo que Ciro encontrou quando governou o Estado décadas atrás. A estrutura administrativa tornou-se mais complexa, as exigências legais aumentaram, os órgãos de controle ganharam protagonismo e a própria sociedade passou a exigir transparência, diálogo institucional e responsabilidade fiscal permanente. Nesse contexto, muitas das propostas anunciadas pela oposição despertam um inevitável questionamento: como exatamente serão implementadas?
Reduzir drasticamente estruturas administrativas pode parecer uma solução intuitiva, mas exige reorganização jurídica, capacidade de negociação política e avaliação rigorosa dos impactos sobre serviços públicos essenciais. Prometer enfrentamento mais duro ao crime organizado também encontra obstáculos concretos. Segurança pública deixou de ser um problema exclusivamente estadual para se tornar um desafio compartilhado entre União, estados, municípios, Judiciário, Ministério Público e forças federais.
Não basta vontade política. É necessária coordenação institucional.
Existe ainda outro aspecto frequentemente negligenciado no debate eleitoral: governabilidade. Um governador não governa sozinho. Precisa construir maioria parlamentar, dialogar com prefeitos, manter interlocução com o setor produtivo, respeitar órgãos de fiscalização e preservar relacionamento institucional com o governo federal. É justamente nesse ponto que surgem as maiores dúvidas sobre a viabilidade política de um projeto baseado predominantemente no confronto.
Ao longo de sua trajetória, Ciro Gomes acumulou episódios de rompimentos públicos com aliados importantes, mudanças de alianças e conflitos verbais que marcaram sua imagem perante parcela significativa da opinião pública. Essa característica pode representar autenticidade para alguns eleitores. Para outros, suscita preocupação quanto à estabilidade política necessária para administrar um Estado de grande complexidade administrativa.
Em contraste, o atual governo estadual vem privilegiando uma estratégia de construção institucional baseada no diálogo, na articulação política e na cooperação entre diferentes níveis de governo. Naturalmente, isso não elimina críticas nem resolve todos os problemas do Ceará. Mas evidencia duas concepções distintas de exercício do poder: uma fundada no enfrentamento permanente; outra, na negociação política e na construção gradual de consensos.
No fim, talvez a eleição de 2026 não seja uma disputa entre governo e oposição.
Talvez seja uma escolha entre dois estilos profundamente diferentes de governar.
