Tecnologia, inteligência artificial e novos investimentos transformam a estrutura do mercado jurídico brasileiro.
Grupo reúne nove empresas, cerca de 14 milhões de processos e mais de 6 mil clientes em um ecossistema de soluções para escritórios e departamentos jurídicos.
Sem recorrer a uma grande fusão ou anunciar uma aquisição bilionária, o Grupo Preâmbulo investiu mais de R$ 50 milhões, nos últimos cinco anos, na formação de um ecossistema de tecnologia voltado ao mercado jurídico brasileiro.
Os recursos foram destinados à modernização tecnológica, à expansão das atividades e à incorporação de negócios complementares. Parte do investimento veio do Criatec 3, fundo criado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e administrado pela KPTL.
A estratégia transformou uma tradicional desenvolvedora de sistemas jurídicos em uma holding com atuação em diferentes etapas da atividade profissional. As soluções abrangem gestão de processos e contratos, inteligência artificial, análise de dados, negociação, automação e serviços financeiros.
Atualmente, o grupo reúne nove frentes de negócios. Entre elas estão Preâmbulo Tech, Cria.AI, Acordo Fechado, Contraktor, Preâmbulo Bank, LawVision e Preâmbulo Office.
“A empresa se profissionalizou estruturalmente ao longo dos últimos cinco anos para acompanhar a evolução do mercado jurídico. Entendemos que era fundamental construir um conjunto de soluções sinérgicas, que se conversam nativamente e atendem às necessidades dos clientes de forma integrada”, afirma Kazan Costa, CEO do Grupo Preâmbulo.
Da gestão jurídica ao modelo de plataforma
Fundada em 1988, a Preâmbulo consolidou sua presença no mercado com o desenvolvimento de sistemas de gestão para escritórios de advocacia e departamentos jurídicos.
Um de seus principais produtos é o CPJ-3C, utilizado no gerenciamento de mais de 11 milhões de processos, segundo informações divulgadas pela própria companhia.
O investimento recebido do Criatec 3, em 2020, contribuiu para acelerar a modernização da empresa, sua migração para o modelo de software como serviço — conhecido pela sigla SaaS — e a estratégia de aquisição ou incorporação de negócios complementares.
A partir desse movimento, a empresa deixou de concentrar seus esforços apenas no aperfeiçoamento de um sistema de gestão. O objetivo passou a ser a construção de uma infraestrutura tecnológica mais ampla, capaz de acompanhar diferentes etapas da operação jurídica.
Os mais de R$ 50 milhões foram aplicados não somente no desenvolvimento de tecnologia, mas também na ampliação de competências, na expansão dos negócios e na integração de soluções anteriormente destinadas a problemas específicos.
Dados ganham valor estratégico
O mercado jurídico brasileiro produz diariamente um grande volume de informações. São dados relacionados a processos, contratos, prazos, decisões judiciais, negociações e atividades administrativas.
Durante muito tempo, essas informações permaneceram distribuídas por sistemas diferentes e sem comunicação entre si. A estratégia da Preâmbulo consiste em integrar essas bases e utilizá-las para desenvolver novos produtos e serviços.
De acordo com números fornecidos pela empresa, o grupo atende mais de 6 mil clientes e administra uma base de aproximadamente 14 milhões de processos. Suas soluções também estariam presentes em cerca de 40% dos 100 maiores escritórios de advocacia do Brasil.
Nesse modelo, o valor do negócio não está apenas nos programas oferecidos, mas também na capacidade de reunir, organizar e analisar informações relacionadas à atividade jurídica, respeitadas as exigências de segurança, sigilo profissional e proteção de dados.
Inteligência artificial amplia a estratégia
A expansão ocorre em um momento no qual escritórios, empresas e instituições públicas começam a incorporar ferramentas de inteligência artificial às suas rotinas.
Em agosto de 2026, o grupo apresentou a Preâmbulo IA, ferramenta desenvolvida para pesquisar, analisar e organizar informações, produzir documentos e automatizar tarefas relacionadas ao trabalho jurídico.
A companhia também desenvolve agentes inteligentes, como o Jarvis, e integra as soluções da Cria.AI ao seu ambiente SaaS. A proposta é permitir que dados e informações contextualizadas sejam utilizados na execução automatizada de determinadas atividades.
Para uma empresa que já mantém uma extensa base de clientes e processos, a inteligência artificial pode representar mais do que o lançamento de um novo produto. Ela cria uma camada adicional de serviços e receitas sobre uma infraestrutura já instalada.
Integração aumenta presença no mercado
Com a ampliação de seu portfólio, o Grupo Preâmbulo passa a atuar não apenas no fornecimento de sistemas de gestão, mas em uma parcela maior da operação dos escritórios e departamentos jurídicos.
Um cliente pode ingressar no ecossistema por meio da gestão de processos e, posteriormente, contratar soluções de inteligência artificial, gestão de contratos, análise de dados, negociação ou serviços financeiros.
Essa integração aumenta os pontos de contato com o cliente e fortalece o modelo de receitas recorrentes. Também pode elevar o custo e a complexidade de uma eventual substituição do fornecedor, uma característica conhecida no setor de tecnologia como switching cost.
Esse aspecto já havia sido destacado pela KPTL ao apresentar sua tese de investimento na companhia. Como o sistema de gestão ocupa uma posição central na rotina dos clientes, sua substituição costuma exigir migração de dados, treinamento das equipes e reorganização de processos internos.
Em vez de apostar em uma única aquisição de grande porte, a Preâmbulo adotou uma estratégia de crescimento baseada na integração progressiva de empresas, produtos, dados e serviços. O aporte de R$ 50 milhões representa, portanto, uma tentativa de posicionar o grupo como uma plataforma de infraestrutura tecnológica para o mercado jurídico brasileiro.
