Expansão das equipes deve ser acompanhada pela revisão de contratos, convenções coletivas, políticas internas e procedimentos de gestão de pessoas

O crescimento de uma empresa normalmente envolve aumento das vendas, contratação de profissionais, adoção de novas tecnologias e ampliação da operação. Esse avanço, entretanto, também eleva as responsabilidades relacionadas à gestão de pessoas e ao cumprimento da legislação trabalhista.

Procedimentos que atendiam uma organização com cinco empregados podem deixar de ser adequados quando a equipe alcança 20, 50 ou 100 profissionais. Contratos, controles de jornada, políticas internas, enquadramento sindical e documentação das mudanças de função precisam acompanhar a nova realidade do negócio.

A ausência dessa atualização pode aumentar a exposição da empresa a conflitos e passivos trabalhistas.

Justiça recebeu mais de 4 milhões de processos

O Relatório Geral da Justiça do Trabalho de 2024 mostra que o sistema recebeu 4.090.375 processos, considerando casos novos e recursos. O número representa crescimento de 19,3% em comparação com 2023.

Quando considerados somente os casos novos, foram registradas 3.599.940 ações. A Justiça do Trabalho também julgou 4.000.793 processos no período, resultado 14,3% superior ao do ano anterior.

Segundo o Tribunal Superior do Trabalho, quase R$ 50 bilhões foram pagos a pessoas que ingressaram com ações e obtiveram resultado favorável. Desse montante, 41,1% decorreram de acordos, 45,1% de execuções e 13,8% de pagamentos espontâneos.

Entre os assuntos mais recorrentes nos novos processos estavam adicional de insalubridade, verbas rescisórias, FGTS, multa prevista no artigo 477 da Consolidação das Leis do Trabalho e indenizações por dano moral.

Os dados demonstram o volume de demandas na Justiça do Trabalho, mas não permitem concluir, isoladamente, que a falta de prevenção jurídica seja a causa de todos esses processos.

Contratos precisam refletir a operação

A advogada trabalhista empresarial Bruna Ribeiro, ouvida no material que originou esta reportagem, afirma que um dos problemas encontrados em empresas em expansão é a manutenção de contratos genéricos ou elaborados quando a organização possuía outra estrutura.

Aspectos como jornada, banco de horas, confidencialidade, utilização de equipamentos, trabalho remoto e concessão de benefícios devem corresponder às atividades efetivamente desenvolvidas.

Modelos retirados da internet ou documentos antigos podem não contemplar as particularidades da empresa, da função exercida e da categoria profissional.

Convenções coletivas exigem acompanhamento

O cumprimento da CLT não esgota todas as obrigações trabalhistas de uma empresa. Convenções e acordos coletivos podem estabelecer pisos salariais, reajustes, benefícios, jornadas diferenciadas, adicionais e outras condições aplicáveis a determinadas categorias.

Com o aumento da equipe ou a contratação de profissionais para novas atividades, torna-se necessário verificar o enquadramento sindical e os instrumentos coletivos correspondentes.

A falta desse acompanhamento pode resultar em diferenças salariais, descumprimento de benefícios e aplicação de multas previstas nas normas coletivas.

Promoções devem ser documentadas

O crescimento empresarial também costuma provocar o surgimento de cargos de coordenação e supervisão. O risco aparece quando o profissional passa a assumir novas atribuições, mas a alteração não é devidamente registrada.

Segundo Bruna Ribeiro, a incompatibilidade entre a função formal e as tarefas realizadas pode gerar discussões sobre desvio ou acúmulo de função. A situação também dificulta a definição de responsabilidades e a organização interna da empresa.

Por isso, promoções, alterações salariais, mudanças de cargo e novas responsabilidades devem ser analisadas e formalizadas adequadamente.

Contratação por pessoa jurídica

A contratação de um prestador constituído como pessoa jurídica pode ser válida, desde que a relação possua efetiva autonomia e respeite as normas aplicáveis.

O contrato, entretanto, não afasta automaticamente a possibilidade de reconhecimento de vínculo de emprego. A análise depende das circunstâncias concretas da prestação dos serviços.

Quando estiverem presentes elementos característicos de uma relação empregatícia, como pessoalidade, remuneração, não eventualidade e subordinação, a Justiça poderá examinar a existência do vínculo, independentemente do nome atribuído ao contrato.

Cada situação deve ser avaliada individualmente, considerando a legislação e a jurisprudência aplicáveis.

Processos internos devem evoluir

Além dos contratos, o crescimento da empresa pode exigir a revisão de procedimentos como:

  • controle e registro da jornada;
  • implantação e acompanhamento do banco de horas;
  • documentação de treinamentos;
  • comunicação das políticas corporativas;
  • aplicação de medidas disciplinares;
  • organização de documentos trabalhistas;
  • formalização de promoções e mudanças de função;
  • capacitação dos gestores e das lideranças.

Para Bruna Ribeiro, a consultoria preventiva pode contribuir para identificar vulnerabilidades antes que elas se transformem em conflitos. Isso não significa eliminar completamente o risco de ações, mas permite que decisões sejam tomadas com mais informação e documentação.

Cinco sinais de alerta

De acordo com a especialista, alguns sinais indicam a necessidade de revisar a gestão trabalhista:

  1. A empresa aumentou a equipe, mas nunca atualizou os contratos de trabalho.
  2. Gestores adotam decisões diferentes diante de situações semelhantes.
  3. Não existem regulamento interno ou políticas formalizadas.
  4. A empresa não acompanha regularmente a convenção coletiva aplicável.
  5. Promoções e mudanças de responsabilidade ocorrem sem documentação.

A recomendação é que a revisão seja realizada por profissionais habilitados e considere a realidade de cada empresa. Modelos padronizados ou orientações gerais não substituem a análise jurídica, contábil e de gestão de pessoas de cada caso.

Para empresas em expansão, a organização trabalhista deve ser compreendida como parte da governança do negócio. A atualização periódica de contratos, procedimentos e políticas internas pode aumentar a segurança das decisões e contribuir para um crescimento empresarial mais organizado.

Fontes

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