Modelo amplia a participação do jurídico nas decisões estratégicas, com foco em gestão de riscos, governança, compliance e prevenção de litígios

A atuação dos advogados dentro das empresas está passando por uma transformação. O profissional tradicionalmente acionado somente quando um problema já havia se convertido em disputa judicial começa a dividir espaço com uma advocacia preventiva, integrada às decisões estratégicas desde o início das operações.

Nesse novo modelo, o advogado participa da identificação de riscos e da construção de soluções capazes de tornar as atividades empresariais mais seguras e sustentáveis.

A mudança amplia o papel da advocacia empresarial. Além de prestar orientação jurídica, o profissional passa a acompanhar a estruturação de operações, a governança corporativa, a conformidade regulatória, a proteção de dados e as relações com clientes, fornecedores e parceiros.

Na prática, o departamento jurídico participa de decisões que podem reduzir vulnerabilidades antes que elas provoquem prejuízos financeiros, sanções administrativas ou processos judiciais.

Complexidade regulatória impulsiona mudança

A transformação ocorre em um ambiente empresarial marcado pelo aumento da complexidade regulatória. O avanço da inteligência artificial, a consolidação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o fortalecimento das exigências de compliance e a maior responsabilização dos administradores elevaram a necessidade de uma atuação jurídica preventiva e integrada à gestão.

O elevado número de ações em andamento no país também reforça essa tendência. Segundo o relatório Justiça em Números 2025, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Judiciário brasileiro registrou aproximadamente 80,6 milhões de processos em tramitação em 2024.

Para o advogado e sócio-fundador do escritório Pironti+Moura, Rodrigo Pironti, a mudança altera a posição ocupada pelo jurídico nas organizações.

“A advocacia deixou de atuar apenas no problema e passou a gerenciar os riscos do cliente. Hoje, o jurídico participa da estratégia do negócio, identifica vulnerabilidades antes que elas se concretizem e contribui para decisões mais seguras e sustentáveis”, afirma.

Riscos surgem antes dos processos

Segundo Pironti, os riscos empresariais aparecem muito antes de uma eventual disputa judicial. Eles podem estar presentes nas estruturas de governança, na organização do negócio, na contratação de fornecedores, na adoção de novas tecnologias e na proteção de dados.

Nesse contexto, a gestão de riscos ganha espaço como instrumento de apoio às decisões e de fortalecimento da capacidade de resposta das empresas.

“A gestão de riscos não serve apenas para evitar perdas. Ela permite que as organizações conheçam melhor seus desafios, identifiquem oportunidades e tomem decisões com mais eficiência e segurança”, destaca.

Compliance integrado à rotina empresarial

A incorporação da gestão de riscos e do compliance à estratégia empresarial já pode ser observada na Velsis Sistemas e Tecnologia Viária S.A. A companhia brasileira é especializada no desenvolvimento de soluções de alta tecnologia para mobilidade urbana, rodovias inteligentes e sistemas de transporte.

Nos últimos cinco anos, a Velsis estruturou e aprimorou continuamente seu Programa de Compliance, com o apoio da consultoria jurídica da Pironti+Moura. O trabalho fortaleceu os mecanismos de prevenção, monitoramento e gestão de riscos da companhia.

Entre 2021 e 2026, foram realizados mais de 30 treinamentos voltados à cultura de integridade e conduzidos mais de 400 processos de due diligence. A empresa também revisou políticas internas, fortaleceu os mecanismos do canal de denúncias e atualizou continuamente sua matriz de riscos.

Durante esse período, a companhia consolidou procedimentos de prevenção, detecção e resposta a incidentes, incorporando a gestão de riscos às decisões cotidianas.

Para Eduardo Moura, CCO da Pironti+Moura, experiências como essa mostram que o jurídico está assumindo uma função cada vez mais estratégica dentro das organizações.

“Quando governança, compliance e gestão de riscos passam a fazer parte da rotina das empresas, o jurídico deixa de atuar apenas como resposta às crises e passa a contribuir diretamente para a tomada de decisões, o fortalecimento dos controles internos e a construção de negócios mais resilientes e preparados para um ambiente regulatório cada vez mais complexo”, conclui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.