Tecnologia entra na rotina dos escritórios, altera tarefas e exige novas competências, mas responsabilidade, estratégia e julgamento profissional continuam nas mãos do advogado
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa sobre o futuro da advocacia. Em 2026, ela já está presente na discussão institucional da profissão, na organização dos escritórios e em atividades como pesquisa, análise documental, comparação de contratos e preparação inicial de textos.
A mudança, entretanto, precisa ser compreendida sem dois exageros: nem a inteligência artificial representa o desaparecimento iminente do advogado, nem deve ser tratada simplesmente como uma ferramenta infalível de produtividade.
O que está acontecendo é uma transformação na forma de trabalhar.
A própria OAB reconhece a mudança
Um sinal importante veio do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.
Em junho de 2026, a OAB lançou o Plano Nacional de Integração da Inteligência Artificial na Advocacia (PNIAA), destinado a orientar a incorporação da tecnologia à profissão.
O plano está organizado em cinco eixos: governança, capacitação, modernização dos serviços da OAB, defesa das prerrogativas profissionais e inclusão tecnológica.
Há uma preocupação particularmente importante para o mercado: impedir que o acesso à tecnologia aumente a distância entre grandes escritórios e profissionais que trabalham individualmente, em pequenas estruturas ou no interior.
A OAB prevê capacitação, produção de orientações práticas e iniciativas destinadas também à advocacia jovem e sênior.
O que a IA já pode mudar no escritório?
O impacto aparece primeiro nas tarefas que envolvem grandes volumes de informação.
Localizar documentos, organizar dados, comparar contratos, estruturar informações e auxiliar pesquisas são exemplos de atividades nas quais sistemas tecnológicos podem reduzir o tempo necessário para determinadas etapas do trabalho.
No Fórum Nacional de Inteligência Artificial na Advocacia, realizado em agosto, a própria OAB destacou ganhos relacionados à localização de documentos, comparação de contratos e organização de provas.
Isso não significa que a ferramenta possa assumir o processo inteiro.
Imagine, por exemplo, uma pesquisa jurisprudencial.
A IA pode ajudar a localizar, organizar e resumir informações. Mas o profissional precisa verificar se a decisão realmente existe, se permanece válida, se corresponde ao tribunal indicado e se possui relação efetiva com o caso analisado.
A velocidade da máquina não elimina a necessidade da conferência humana.
O perigo da informação inexistente
Esse é um dos pontos mais delicados.
Sistemas de inteligência artificial generativa podem produzir respostas aparentemente convincentes que contenham informações incorretas ou referências inexistentes.
Em julho, a OAB lançou o OpenDetector, ferramenta gratuita para advogados regularmente inscritos, destinada a auxiliar na verificação de documentos elaborados com apoio de inteligência artificial.
Segundo a Ordem, o sistema pode identificar possíveis inconsistências, como dispositivos legais inexistentes, precedentes incorretos e citações sem correspondência em bases oficiais.
O lançamento da ferramenta é revelador: utilizar IA não basta. É necessário conferir o que ela produz.
Quem responde pelo trabalho?
O advogado.
Esse princípio permanece fundamental.
Durante o Fórum Nacional realizado em agosto, a OAB sintetizou a questão de maneira direta: quem assina um trabalho precisa conferi-lo e quem sustenta uma tese precisa conhecer sua fonte.
A inteligência artificial pode auxiliar o profissional, mas não transfere para a máquina sua responsabilidade técnica.
Esse ponto modifica também o conceito de competência profissional.
Saber formular uma pergunta para uma ferramenta de IA pode ser útil. Saber avaliar criticamente a resposta é muito mais importante.
Sigilo profissional exige atenção
Existe ainda outra questão essencial: os dados utilizados.
Um processo pode conter informações pessoais, estratégias jurídicas, documentos empresariais, dados financeiros e outros elementos que não devem ser simplesmente transferidos para qualquer plataforma digital.
Por isso, antes de utilizar determinada ferramenta, o profissional precisa conhecer suas condições de segurança, privacidade e tratamento das informações.
A preocupação não está restrita à advocacia.
A Resolução nº 615/2025 do Conselho Nacional de Justiça estabeleceu normas para desenvolvimento, governança e uso responsável da inteligência artificial no Poder Judiciário. A norma foi posteriormente alterada pela Resolução nº 674/2026.
Entre seus princípios estão segurança, transparência, supervisão humana e proteção de direitos fundamentais.
Para determinadas utilizações de sistemas externos de IA generativa no Judiciário, existem restrições específicas relacionadas a documentos ou dados sigilosos e protegidos por segredo de justiça.
A IA pode favorecer o pequeno escritório?
Potencialmente, sim.
Esse talvez seja um dos efeitos mais interessantes da transformação.
Grandes bancas possuem equipes numerosas, departamentos especializados e estruturas tecnológicas próprias. Um advogado individual dificilmente poderia reproduzir essa capacidade apenas aumentando suas horas de trabalho.
Ferramentas tecnológicas podem diminuir parte dessa diferença em determinadas tarefas.
Um pequeno escritório pode utilizar tecnologia para melhorar organização, gestão documental, pesquisa e produtividade.
Mas surge outra desigualdade: quem possui melhores ferramentas, treinamento e conhecimento tecnológico poderá obter vantagens sobre quem não possui.
É justamente por isso que a inclusão tecnológica integra o plano nacional anunciado pela OAB.
O jovem advogado precisa aprender IA?
Sim, mas aprender IA não significa abandonar a formação jurídica tradicional.
O profissional continuará precisando compreender legislação, jurisprudência, processo, doutrina, argumentação, ética e estratégia.
A diferença é que uma nova camada de conhecimento está sendo acrescentada.
O advogado contemporâneo precisa entender o que uma ferramenta de IA consegue fazer, onde ela pode errar, quais informações não devem ser fornecidas indiscriminadamente e como verificar os resultados produzidos.
Em outras palavras, o profissional não precisa competir com a máquina em velocidade; precisa saber dirigir, conferir e contextualizar o trabalho realizado com auxílio dela.
E o advogado experiente?
A transformação não interessa somente aos jovens.
Profissionais com décadas de atividade possuem algo que nenhum aplicativo oferece automaticamente: experiência acumulada, compreensão do comportamento humano, capacidade de negociação e conhecimento prático das instituições.
A tecnologia pode complementar esse patrimônio profissional.
Por isso, o PNIAA também prevê iniciativas dirigidas à advocacia sênior.
A questão não é trocar experiência por tecnologia. É utilizar tecnologia para potencializar experiência.
Algumas tarefas podem desaparecer
É razoável esperar que determinadas atividades repetitivas sejam progressivamente automatizadas.
Isso não significa necessariamente o desaparecimento das profissões que atualmente executam essas tarefas. Pode significar que o valor do trabalho humano migre para atividades de maior complexidade.
O profissional poderá gastar menos tempo organizando documentos e mais tempo avaliando estratégias, negociando, atendendo clientes, construindo argumentos e tomando decisões.
Mas essa transição também poderá produzir dificuldades.
Escritórios precisarão rever processos internos. Universidades terão de discutir novas competências. Profissionais precisarão investir em atualização.
A pergunta mudou
Durante algum tempo, a discussão foi dominada por uma pergunta:
A inteligência artificial vai substituir o advogado?
Talvez essa seja uma maneira inadequada de formular o problema.
A pergunta mais útil para quem está construindo uma carreira é:
como trabalhará o advogado que souber utilizar a inteligência artificial diante daquele que decidir ignorá-la?
Não existe ainda uma resposta definitiva.
O que já existe são sinais suficientemente fortes de transformação para que estudantes, advogados, escritórios, universidades e entidades profissionais não tratem mais o assunto como uma hipótese distante.
A inteligência artificial já começou a modificar a carreira jurídica.
O desafio agora é assegurar que produtividade e inovação caminhem acompanhadas de conhecimento jurídico, responsabilidade, ética, segurança e julgamento humano.
CARREIRA | DIREITOCE
PARA GUARDAR
A IA pode auxiliar em pesquisa, organização de informações, comparação de documentos e outras tarefas profissionais, mas seu resultado precisa ser verificado. Informações confidenciais exigem cuidados adicionais, e a responsabilidade pelo trabalho jurídico continua sendo do profissional.
