O Ceará precisa de serenidade, não de confrontação
A volta de Ciro Gomes ao cenário político cearense é, sem dúvida, um dos acontecimentos mais relevantes da sucessão estadual de 2026. Poucos personagens da política brasileira possuem sua inteligência, capacidade argumentativa e domínio de temas econômicos. Sua trajetória administrativa integra a própria história contemporânea do Ceará. Mas a experiência também traz consigo um patrimônio de acertos e de erros. E talvez seja justamente nesse ponto que reside a principal reflexão que o eleitor precisa fazer.
O problema nunca foi a capacidade intelectual de Ciro Gomes. O problema sempre foi sua forma de fazer política. Ao longo de décadas de vida pública, consolidou-se uma imagem marcada pelo enfrentamento permanente, pela retórica agressiva, pelo conflito verbal e pela dificuldade de preservar alianças políticas duradouras. Adversários foram atacados. Antigos aliados tornaram-se desafetos. Rupturas sucederam rupturas. Essa postura pode mobilizar militâncias, produzir manchetes e viralizar nas redes sociais. Mas governar um Estado não é vencer debates na televisão ou produzir vídeos contundentes para a internet. Governar exige capacidade de ouvir, negociar, construir consensos e administrar divergências. Mais do que nunca, o Ceará precisa de estabilidade institucional. As propostas anunciadas na pré-campanha também merecem exame criterioso.
Em política, denunciar problemas costuma ser relativamente simples. Difícil é apresentar soluções financeiramente sustentáveis, juridicamente viáveis e politicamente executáveis. Prometer reorganizações profundas da máquina pública, mudanças estruturais e soluções rápidas para desafios históricos pode produzir forte impacto eleitoral. Mas existe enorme distância entre o discurso de campanha e as limitações impostas pelo orçamento, pela legislação, pelos órgãos de controle e pela própria realidade administrativa. A boa política exige responsabilidade.
Ao mesmo tempo, seria intelectualmente desonesto ignorar que o atual governo apresenta resultados e indicadores positivos em diversas áreas e mantém uma postura institucional muito distinta da política de confronto permanente. É evidente que permanecem enormes desafios, especialmente na segurança pública, tema que continua sendo uma das maiores preocupações da população. Também existem críticas legítimas sobre eficiência administrativa, burocracia e velocidade de resposta do Estado. Mas o ambiente político conduzido pelo governador Elmano de Freitas e pelo grupo liderado por Camilo Santana caracteriza-se, até aqui, por uma atuação marcada pelo diálogo institucional, pela busca de articulação entre os diversos Poderes e por uma comunicação pública menos orientada pelo conflito pessoal.
Essa diferença de estilo não é irrelevante. Em tempos de radicalização, serenidade pode ser uma virtude política de enorme valor. A eleição de 2026 talvez coloque diante dos cearenses uma escolha que vai muito além dos programas de governo. O que estará em julgamento será também o modelo de liderança que se pretende para os próximos anos: uma política fundada no permanente enfrentamento ou uma política construída pela estabilidade, pela negociação democrática e pela capacidade de unir instituições em torno do interesse público.
O eleitor decidirá.
Mas vale lembrar que inteligência sem prudência pode produzir grandes discursos. Já a serenidade, quando acompanhada de responsabilidade administrativa, costuma produzir governos mais estáveis e sociedades mais confiantes em suas instituições.
