Com sete candidaturas ao Governo, duas vagas para o Senado, 22 cadeiras na Câmara dos Deputados e 46 na Assembleia Legislativa em disputa, as eleições de 2026 poderão produzir uma profunda reorganização das forças políticas cearenses. No centro da corrida pelo Palácio da Abolição estão Ciro Gomes e Elmano de Freitas, mas compreender a eleição exige olhar para todo o tabuleiro partidário.
Depois de percorrer a formação histórica, as transformações e a atual organização dos partidos brasileiros, a série especial do DireitoCE — Partidos e Democracia chega ao Ceará.
E chega em um momento particularmente importante.
As eleições de 2026 encontram o Estado diante de uma reorganização de alianças que rompeu antigas fronteiras políticas.
Adversários aproximaram-se. Antigos aliados passaram a ocupar palanques diferentes. Partidos que historicamente estiveram em campos distintos construíram novas alianças estaduais.
No centro desse rearranjo estão o governador Elmano de Freitas (PT), candidato à reeleição, e o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que tenta retornar ao Palácio da Abolição.
Mas eles não estão sozinhos.
A disputa pelo Governo possui outras candidaturas, entre elas Vera Lúcia (Novo), Delegado Huggo (Missão), Danilo Soares (Democrata), Serley Leal (UP) e Zé Batista (PSTU).
É importante registrar todas porque uma eleição democrática não pode ser apresentada apenas a partir dos candidatos que lideram as pesquisas.
Ciro e Elmano concentram a disputa
Embora existam sete candidaturas, os levantamentos eleitorais disponíveis até agora mostram forte concentração das intenções de voto em Ciro e Elmano.
O mais recente Datafolha, divulgado em 3 de setembro, registrou Ciro Gomes com 46% e Elmano de Freitas com 37% das intenções de voto no cenário estimulado.
Vera Lúcia, Danilo Soares e Serley Leal aparecem com 1% cada.
Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não recebem uma lista com os nomes dos candidatos, Ciro aparece com 29% e Elmano com 25%.
O levantamento ouviu 1.204 eleitores e informou margem de erro de três pontos percentuais.
Pesquisa não é resultado eleitoral. É uma fotografia das preferências dos entrevistados no período em que o levantamento foi realizado e deve sempre ser interpretada dentro de sua metodologia e margem de erro.
Ciro tenta voltar ao Governo
A candidatura de Ciro Gomes possui um componente histórico.
Depois de uma longa trajetória por diferentes partidos, Ciro retornou ao PSDB, legenda pela qual foi eleito governador do Ceará em 1990.
Mais de três décadas depois, tenta novamente chegar ao Palácio da Abolição.
Seu candidato a vice é Roberto Cláudio, do União Brasil, ex-prefeito de Fortaleza.
A aliança construída em torno de Ciro reúne forças que poucos anos atrás dificilmente seriam encontradas no mesmo palanque.
Entre elas estão PSDB, União Brasil, PP e PL.
A presença do PL possui especial importância porque o partido constitui uma das maiores forças da política nacional e chega à eleição cearense integrado ao principal campo de oposição ao atual governo estadual.
Elmano defende a continuidade
Do outro lado está Elmano de Freitas (PT).
Eleito governador no primeiro turno em 2022, Elmano tenta conquistar mais quatro anos de mandato.
Sua candidata a vice é Gabriella Aguiar, do PSD.
A candidatura representa a continuidade do grupo político que governa o Ceará desde 2015 — primeiro com Camilo Santana e depois com Elmano.
O governador possui ainda um ativo eleitoral importante: o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em setembro, Lula voltou ao Ceará para participar da campanha do governador, numa demonstração da importância atribuída pelo campo governista à disputa estadual.
A candidatura de Elmano também está sustentada por uma ampla composição partidária e por importantes lideranças políticas estaduais.
O PL ocupa posição estratégica
O PL merece uma análise própria nesta eleição.
Nacionalmente, tornou-se uma das maiores forças parlamentares do país.
No Ceará, integra o campo político que apoia Ciro Gomes.
Essa composição é politicamente significativa porque aproxima Ciro de uma força que, no plano nacional, ocupa posição bastante diferente de boa parte dos campos pelos quais ele transitou durante sua trajetória.
A aliança provocou, inclusive, divergências entre segmentos da própria direita.
Independentemente dessas disputas internas, do ponto de vista eleitoral a presença do PL aumenta a estrutura partidária disponível para a candidatura oposicionista.
Cid e Ciro em lados opostos
Um dos capítulos mais simbólicos das eleições de 2026 é a separação política entre Ciro Gomes e Cid Gomes.
Durante décadas, os irmãos estiveram associados ao mesmo grupo político e participaram conjuntamente de importantes disputas eleitorais no Ceará.
Agora estão em lados adversários.
Ciro disputa o Governo contra Elmano.
Cid, filiado ao PSB, apoia Elmano e concorre ao Senado dentro do campo governista.
A ruptura possui antecedentes na eleição estadual de 2022 e tornou-se, quatro anos depois, um elemento importante para compreender a reorganização política cearense.
A divisão dos Ferreira Gomes não é apenas uma questão familiar.
Ela simboliza a fragmentação de uma estrutura política que durante muitos anos teve enorme influência sobre o Ceará.
Duas cadeiras do Ceará no Senado
A eleição para o Senado merece tanta atenção quanto a disputa pelo Governo.
Em 2026, dois terços do Senado Federal serão renovados, o que significa que cada Estado e o Distrito Federal escolherão dois senadores.
No Ceará, portanto, estão em disputa duas das três cadeiras do Estado.
Os eleitos receberão mandatos de oito anos.
Essa eleição poderá modificar não apenas a representação cearense em Brasília, mas também a correlação de forças do Senado Federal.
Por isso, os grandes grupos estaduais procuram associar a eleição para governador às candidaturas senatoriais.
Câmara: Ceará ganha duas cadeiras
Outra mudança importante ocorrerá na representação cearense na Câmara dos Deputados.
Em 2026, o Ceará elegerá 22 deputados federais.
São duas cadeiras a mais que as 20 existentes anteriormente.
O aumento decorre da redistribuição das vagas da Câmara baseada nos dados populacionais.
Isso amplia o peso da bancada cearense em Brasília e abre espaço adicional para a disputa entre partidos e federações.
O TRE-CE confirma que o Estado terá 22 representantes federais na próxima legislatura.
Assembleia mantém 46 deputados
Na Assembleia Legislativa, serão eleitos 46 deputados estaduais.
A composição da Alece será fundamental para quem vencer o Governo.
Um governador não governa apenas com os votos recebidos na eleição.
Precisa construir maioria parlamentar para aprovar projetos, orçamento, mudanças administrativas e outras iniciativas.
Por isso, paralelamente à disputa pelo Palácio da Abolição, existe outra batalha política: quem controlará a Assembleia Legislativa a partir de 2027?
O voto para deputado também é voto no partido
Nas eleições proporcionais existe uma característica que muitas vezes passa despercebida.
Deputados federais e estaduais não são escolhidos simplesmente comparando individualmente os votos de todos os candidatos.
O sistema considera também a votação obtida pelos partidos e federações.
Isso significa que o voto dado a determinado candidato contribui para o desempenho da legenda ou federação pela qual ele concorre.
Por isso, a força partidária é fundamental.
As urnas de outubro mostrarão não apenas quais candidatos são populares, mas quais organizações partidárias conseguirão aumentar suas bancadas.
Fortaleza é decisiva, mas não é o Ceará inteiro
Qualquer análise eleitoral do Ceará precisa evitar outro erro: olhar exclusivamente para Fortaleza.
A capital possui enorme peso eleitoral, mas o resultado estadual depende também da Região Metropolitana e do interior.
Sobral e a Região Norte, Juazeiro do Norte e o Cariri, Caucaia, Maracanaú, Crato, Iguatu, Quixadá e dezenas de polos regionais possuem dinâmicas políticas próprias.
Além disso, existe a força dos prefeitos.
A eleição municipal de 2024 definiu novas administrações nos 184 municípios cearenses, criando estruturas locais que agora voltam a ter importância na mobilização eleitoral de 2026.
A capilaridade municipal será, portanto, um dos ativos dos partidos nesta campanha.
Segurança entra no centro da campanha
Além das alianças partidárias, existe uma disputa em torno dos temas que dominarão a eleição.
A segurança pública tornou-se um dos assuntos centrais da campanha cearense.
Ciro vem utilizando o tema como uma das principais linhas de crítica à administração estadual.
Elmano, por sua vez, defende as medidas adotadas pelo governo e tem apresentado suas propostas para enfrentamento do crime organizado.
Economia, emprego, saúde, educação, infraestrutura, desenvolvimento regional e relação do Ceará com o Governo Federal também deverão ocupar espaço crescente até outubro.
A campanha ainda tem quase um mês
A eleição permanece aberta.
O primeiro turno será realizado em 4 de outubro de 2026.
Caso nenhum candidato ao Governo obtenha mais da metade dos votos válidos, haverá segundo turno em 25 de outubro.
Até lá, propaganda eleitoral, debates, entrevistas, redes sociais, mobilização municipal e acontecimentos políticos poderão alterar as preferências dos eleitores.
Há ainda uma questão jurídica importante.
Segundo o calendário oficial do TRE-CE, 14 de setembro é o prazo para que todos os pedidos de registro de candidatura — inclusive os impugnados e respectivos recursos nas instâncias ordinárias — estejam julgados e publicados.
A mesma data é o prazo final previsto para determinadas substituições de candidatos.
Portanto, esta reportagem apresenta o quadro existente em 5 de setembro de 2026.
Mais de 6,8 milhões de cearenses decidem
A dimensão da eleição ajuda a mostrar o que está em jogo.
Segundo o TRE-CE, 6.854.818 eleitoras e eleitores estão aptos a votar no Ceará.
Eles participarão da escolha de:
Presidente da República;
Governador e vice-governador do Ceará;
dois senadores;
22 deputados federais;
46 deputados estaduais.
Portanto, o voto de outubro definirá simultaneamente o comando do Executivo e parte significativa da representação política estadual e nacional.
O Ceará diante de um novo tabuleiro
Talvez nenhuma palavra sintetize melhor a eleição de 2026 do que reorganização.
Ciro voltou ao PSDB.
Roberto Cláudio está no União Brasil e tornou-se seu vice.
O PL passou a integrar a aliança de Ciro.
Elmano busca a reeleição pelo PT.
Gabriella Aguiar, do PSD, ocupa a vice na chapa governista.
Cid Gomes está politicamente afastado do irmão e apoia Elmano.
Antigas alianças foram rompidas.
Outras, até pouco tempo improváveis, foram construídas.
E partidos menores também entram na disputa procurando apresentar alternativas aos dois principais grupos.
Quem ganhará o poder?
Essa pergunta somente poderá ser respondida pelas urnas.
A pesquisa mais recente coloca Ciro à frente de Elmano, mas ainda existe praticamente um mês de campanha.
Mais importante do que transformar pesquisas em previsões é compreender o que os eleitores estarão decidindo.
O Ceará não escolherá apenas um governador.
Escolherá dois senadores, ampliará sua bancada federal para 22 deputados, renovará as 46 cadeiras da Assembleia Legislativa e participará da escolha do próximo presidente da República.
Quando as urnas forem abertas, será possível saber quais candidatos venceram.
Mas haverá uma segunda pergunta igualmente importante:
quais partidos sairão fortalecidos das eleições de 2026?
Essa resposta mostrará quem terá poder no Palácio da Abolição, na Assembleia Legislativa, na bancada cearense em Brasília e nas grandes negociações políticas dos próximos anos.
A série especial Partidos e Democracia termina, portanto, onde todo processo democrático deve terminar:
no voto do cidadão.
Em 4 de outubro de 2026, mais de 6,8 milhões de eleitores cearenses terão a palavra.
DIREITOCE — REPORTAGEM ESPECIAL
ELEIÇÕES 2026 — PARTIDOS E DEMOCRACIA
PARTE 6 — FINAL DA SÉRIE
Atualizado em 5 de setembro de 2026.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) e levantamentos eleitorais registrados na Justiça Eleitoral. Registros de candidaturas e respectivas situações jurídicas podem sofrer alterações decorrentes de decisões da Justiça Eleitoral.
